quinta-feira, 31 de março de 2016

Relato da claridade

Em noite sem lua pela alta madrugada um monstro vermelho surgiu no céu e devorou estrelas.

A lista no diário

     Sete horas da manhã de Sábado. Rodrigo desperta de um sonho, sua esposa continua dormindo. Ele levanta-se da cama e sai do quarto para não acordar sua esposa. Já na sala de jantar olha o caderno de seu filho sobre a mesa, na noite anterior o deixou para que no sábado listasse os itens da compra mensal da família. Sem ir ao banheiro, sem ter despertado totalmente para o dia, senta-se na cadeira junto à mesa e abre na última folha do caderno. Não irá listar os itens da compra, para isto é necessário que sua esposa esteja presente. Apenas começa a escrever sobre seu sonho, sem ter pensando sobre isto, apenas escreve na última folha do caderno como se fosse seu diário...
     Sonhei que conseguia passar no exame da ordem! Um sonho que significa uma vida toda em apenas segundos antes de acordar. Minha terceira vez tentando, ontem antes de dormir falei com a Fabi – Se eu não passar, acho melhor voltar a estudar para conseguir com a ajuda de algum curso preparatório – Mas não será fácil, afinal, minha rotina não está nada maleável! É interessante que antes de sonhar com consagração da ordem, venho sonhando com o caminho que eu fazia todos os dias quando estava na oitava serie e era o último ano para chegar ao primeiro ano do ensino médio, hoje seria o nono ano, mas isto não importa... Estava com o último ano pela frente antes de deixar de ser criança, porque na minha época; só deixaria de ser criança quem passasse para o primeiro ano do ensino médio, e foi um longo ano sonhando com o próximo ano pelo caminho: escola e casa.
     Após passar o ano todo sonhando com a adolescência declarada por todos, fui atravessando o corredor até as duas últimas salas no final do mesmo, enquanto caminhava pelo corredor despertava e acordava aos poucos passando em cada sala lateral; as quintas, as sextas, as sétimas e alguns conhecidos ainda na oitava. Despertei por completo olhando as duas salas. Procurei pelo meu nome no papel da porta na sala A e não encontrando fui na B. Poucos alunos se encontravam em suas carteiras e nenhum era colega do ano anterior. Depois que entrei na sala fui direto para a linha de fileira que sempre sentei em todos os anos na escola: a fileira de carteiras que fica na frente da mesa dos professores, onde conseguindo sentar ao lado da janela dos fundos; melhor ainda! Tudo ali era melhor: olhar para o movimentado corredor lateral, olhar para sala toda com um ótimo ângulo, poder colar (se for preciso) com mais facilidade. O lugar até então perfeito foi desfigurado com uma janela para o muro, os corredores que me acompanharam desde sempre, agora era um muro sem pintar e sem acesso pelos alunos, e não demorou muito para piorar; após o sino e a professora começar com sua apresentação e nós com a nossa, ela pediu para ligar o ventilador de teto da sala que girava em conjunto com ferro preso ao teto e as três pás, era assustador olhá-lo; parecia que a qualquer momento o ferro pregado ao teto não iria aguentar girar em conjunto com as pás e despregaria do teto girando e para isto acontecer – no meu pensamento – era questão de tempo! Impossível tirar a visão do ventilador, o que mais me assustava era que para os outros colegas e para a professora, tudo estava normal; o ventilador jamais iria sair girando e decepar algumas cabeças, mas no meu pensamento ele sairia girando e com certeza, algum dos quatros lados da sala seria atingido. Quando a luz das ideias me ligou, olhei a carteira embaixo do ventilador e por sorte ainda não tinha sentado ninguém... E agora? Levanto de uma só vez e sento ou espero pelo outro dia, outra professora entrar na sala ou essa professora parar de falar? Pânico total! Desejei levantar o mais rápido possível, mas fiquei com vergonha da professora falar alguma coisa, olhando para o ventilado, o medo só aumentava e eu sabia que tinha que fazer algo... Pensei em falar: Professora, esse ventilador irá matar alguém! Não é melhor desligar? Mas como adolescente decidir esperar... Planejei que não tiraria os olhos do Ventilador e quando ele se soltasse eu me jogaria ao chão e com sorte sobreviveria. Quando chegou minha vez na apresentação, não consegui manter a calma, falei para dentro e até gaguejei, mas ainda era um adolescente. No primeiro intervalo esperei todos saírem da sala, quando eles saíram peguei minha mochila e pulei em direção ao melhor lugar segundo minha análise, jogando minha mochila sobre a protetora carteira e sentei na cadeira. Não sai da sala e continuei sentado, agora mais relaxado até todos retornarem... Quando voltaram, um adolescente com fios de barba no rosto, transparecendo um repetente passou ao lado e jogou minha mochila ao chão. Segurando meu braço direito com suas duas mãos, aproximou-se e disse: Não quero um pirralho na minha frente. Meu medo já tinha passado e agora um segundo na mesma manhã com pouco tempo de diferença, era demais para mim! Levei com tudo e com meu impulso dei uma cabeça em seu peito, ele caiu de costas nas carteiras ao lado. Alguns colegas viram e se assustaram, igual ao adolescente caído sobre as carteiras. Ele se levantou rápido, mas excitou continuar com a briga. Dias depois conversando com meus novos colegas de sala, falaram sobre meus olhos vermelhos e meu rosto de raiva... Mas tudo o que eu senti depois que sentar naquele lugar era alívio e segurança...
     Após escrever está última frase, Rodrigo descansa suas costas na guarda da cadeira e sorrindo pensa o quanto enganado esteva e quanta sorte teve quando ainda naquela primeira semana de aula concertaram o ventilador que se caísse, cairia sobre sua cabeça.

terça-feira, 1 de março de 2016

Não deseje, exista!

O desejo molda como o seu existir faz você ser algo só pela vontade de se satisfazer; seja vazio de desejos e cheio de sua própria vida.