terça-feira, 25 de agosto de 2015

Núcleo de Apoio

     Sejam todos bem-vindos ao encontro semanal. É sempre bom quando recebemos um novo membro ao grupo, porque podemos todos juntos nos ajudar e conseguir vencer os desafios como uma família. É sempre bom dizer que é importante e muito, que todos continuem seus tratamentos. Muito bem... Hoje recebemos um novo membro no grupo. Por favor, se apresente à todos...
– Bom, é... Eu estou um pouco nervoso, eu sou um pouco tímido... – O novo membro se vê cercado pela grande roda de pessoas, todas sentadas em suas cadeiras em torno da orientadora do grupo. E com certeza a primeira vez no grupo não é fácil...
– Não precisa começar por você, mas é bom que antes que comecemos podemos conhecer o novo membro – Disse ela.
– Tudo bem... Bom, eu me chamo Roberto... – Todos dão boas vindas ao Roberto – Obrigado! Tenho 18 anos e estou passando por acompanhamento psicológico.
– Muito Bem... – Orientadora fala – Obrigado por fazer parte ao grupo, depois no final vou pegar com você sua ficha, tudo bem? ...Ok! Bom pessoal, como todos sabem esse grupo foi formando na minha pós-graduação e foi uma experiência muito boa e com apoio da Igreja que nos concede este salão ele se mantem. Ele foi criado para vocês e se mantem também por vocês! Então vamos começar os trabalhos? Alguém hoje gostaria de compartilhar com todos algo novo, alguma superação, a luta para continuar no caminho?
– Eu... – Levantou-se o Rafael. Eu não vou entrar em detalhes de como Rafael ou outro membro do grupo se veste, suas idades e sua maneira de viver o mundo. Vou apenas revelar que muitos deles são ainda jovens então, vamos apenas entende-los em suas caminhadas com apoio do grupo.
– Rafael... Pessoal, vamos ouvir o Rafael – Orientadora.
– Como eu me abri a três semanas passadas, eu sempre quis ser fotografo. Não fotografo de casamento, eu queria ser fotografo das coisas. Hoje não estou carregando minha câmera, isto é uma mudança incrível, eu só carrego meu HiPhone, mas não tenho mais aquele vício de todos os dias tirar fotos do céu, do por ou do nascer do sol, às vezes eu – como disse na minha primeira vez aqui – eu acordava as cinco, seis horas da manhã sem saber porque e era mais um despertar natural para correr atrás dos primeiros raios de sol, de vê-lo buscar fotografa-lo de lugares diferentes de casa, da rua, do carro, enfim, eu sempre fotografava tudo; de formiga carregando uma parte de algum outro inseto ou várias formigas carregando uma barata e agora ao falar dessas fotos é dizer que também não era só fotografar, eu tinha postar ele online para todos vissem minhas fotos. Uma das grandes mudanças depois que aceitar que eu tinha um problema foi desinstalar o aplicativo e deixar minha câmera digita em casa. Antes era tirar foto minha câmera e depois com o celular para postar... Era tantas fotos no decorrer do dia e da noite, algumas não faziam o menor sentido e aquelas legendas de “não filtro” e tantas outras besteiras... Bem pessoal, hoje eu estou bem melhor, diria normal. Talvez tenha até perdido uma grande foto esses dias, era junção muito boa com um idoso tomando sorvete e uma criança provavelmente seu neto pegando uma lata de cerveja no chão do parque, ela estava vazia... Acho que teria sido uma boa foto, mas se eu voltasse naquele momento, talvez eu continuasse sempre a voltar... Hoje com ajuda de vocês e do psicólogo eu estou bem! – Rafael senta e todos aplaudem.
– Obrigado por compartilhar sua evolução Rafael. Estamos todos torcendo pra você! – Orientadora.
– Obrigado – Responde Rafael.
– Mais alguém deseja compartilha suas conquistas hoje? É sempre muito importante relatar com o grupo qualquer mudança em seu processo, positiva ou negativa...
– Eu – Levanta um jovem.
– Qual seu nome mesmo? Você começou semana passada? – Orientadora.
– Sim! Meu nome é Guilherme.
– Muito bem Guilherme! Obrigado por compartilhar e pode começar... – Orientadora.
– Então... Essa foi minha primeira semana em que estou tentando diminuir, na verdade parar, porque só diminuir eu não vou conseguir. E ainda está muito difícil de conseguir me controlar e mesmo diminuir. Na primeira vez que estive aqui, enquanto ouvia as outras pessoas eu fiquei jogando pelo celular, hoje enquanto esperávamos para começar, eu pensei umas dez mil vezes em jogar. Porém me controlei. Estou me controlando cada vez mais... Tenho médico todos os dias e está sendo muito difícil pra mim – Guilherme está emocionado – Eu nunca antes passei tanto tempo sem jogar! Troquei de computador para perder todos os jogos que eu passava horas jogando e na verdade eu nem uso mais computador para me controlar. Quando eu entro no meu quarto, eu sinto um vazio! Durante todo tempo meu único desejo é de jogar. É uma necessidade maior que comer ou fazer qualquer outra coisa... E isto estava tirando todo meu tempo, eu não tinha tempo para as atividades da escola, para estudar na escola, para jantar ou almoçar com minha família, tudo se resumia em jogar e jogar! Agora eu falando essas coisas... Eu sei que não estou 100%, tenho ainda jogos no meu celular e às vezes eu entro no banheiro para fica jogando... – Guilherme passa a chorar e senta na cadeira com as mãos em seu rosto.
– Pessoal, vamos aplaudir Guilherme por ser honesto com ele mesmo. – Orientadora fala e todos aplaudem – Alguém pega uma água para o Guilherme, por favor... Guilherme... Levanta cabeça, você foi muito forte hoje e está sendo durante todos esses dias. Todos aqui sabem o quanto é difícil as primeiras semanas e o número de vezes em que pensamos em desistir. No final do encontro, vamos conversar em particular, tudo bem? – Guilherme concorda com sua cabeça.
– Bom pessoal, deixa ele se acalmar e enquanto ele se acalma alguém deseja compartilhar? Roberto, você deseja compartilhar sua experiência hoje no seu primeiro dia?
– Posso ser o ultimo? Se não se importarem... – Diz Roberto.
– Não tem problema Roberto... Pessoal, vamos dar confiança para o Roberto. Alguém deseja compartilhar com o grupo?
– Eu aqui...
– Lourival... Quem bom. Pessoal o Lourival é um dos primeiros que está junto ao grupo. Pode começar...
– Obrigado! Como a orientadora falou, eu sou um dos primeiros a fazer parte desse grupo, já estou a um bom tempo com todos aqui. Eu ainda não falei com nossa orientadora que essa é minha última semana. Estou com todos aqui aproximadamente por um ano e meio, foi muito difícil vir até aqui no início para buscar ajuda e superar minhas vontades, mas toda semana eu vinha e tentei ir me moldado. Na primeira vez que estive aqui foi um pouco confuso, porque as pessoas não entendiam bem meu problema. Lembro que no final eu saindo com meus pais um dos membros chegou a mim e disse que eu não tinha problema algum. De qualquer forma eu vou resumir para quem não conhece: Eu sou filho único de Pai engenheiro e Mãe Arquiteta. Quando surgiu meu problema, todos não entendiam e alguns diziam que não era um problema... Mas fomos atrás de ajuda e hoje entendo que eles só desejam meu bem. Eu desde criança sempre sonhei em ter uma banca de jornal, ser aquele que passa horas entre revistas e jornais. Não sabia por qual motivo, talvez por passar por eles pelo caminho da escola. Ás vezes eu comprava álbuns de figurinhas para ir à banca todos os dias e sentir aquele cheiro de livro novo. E isto foi despertando minha vontade de ser dono de uma banca daquelas e entre um cliente e outro ler uma revista, o jornal, um livro... Mas isto nunca foi possível. Quando chegou o momento que sai do ensino médio, fugi de casa. Minha família não entendia meu desejo e isto me fez sair de casa, meus pais não me davam o dinheiro para comprar o ponto e realizar meu desejo então fugi de casa e fui buscar um emprego. Peguei minhas coisas e no caminho para casa de um amigo comprei um jornal. Olhei os classificados e tinha uma vaga para porteiro. Era quase igual o que eu queria, só iria trocar clientes por moradores e revistas pela pequena TV. E ainda pensava na possibilidade de continuar lento em horário de trabalho. Peguei o circular e fui para entrevista de emprego, eu não tinha carteira de trabalho e menti sobre um monte de coisas e é claro sem experiência e com cara de menino não consegui o emprego. O que vou fazer para ser porteiro? Eu me perguntava. No meu pensamento lógico era mais fácil conseguir emprego de porteiro, guardaria o salário e talvez em três anos conseguisse comprar o ponto da banca de jornal. Durante uma semana fiquei passando por várias entrevistas de emprego e não conseguia nada e por fim minha família me encontrou na casa desse amigo e era obvio que a mãe dele iria achar estranho, eu uma semana inteira na casa deles. Triste por não conseguir emprego não tive escolha e voltei para casa dos meus pais. Passou alguns dias e fui levado ao médico. Com acompanhamento médico frequentei o encontro. Hoje estou deixando vocês, meu tratamento médico acabou mês passado e agora vou estudar para o vestibular de Biblioteconomia... Quero agradecer à orientadora e todos vocês! Muito Obrigado!
– Parabéns Lourival... Me pegou de surpresa! Palmas para o Lourival pessoal... – Orientadora fala – Obrigado pessoal! Bom, ainda temos tempo alguém deseja compartilha? Roberto? Sabemos que hoje é seu primeiro dia e o quanto difícil é o primeiro dia, mas vai fazer bem pra você começar compartilhando e assim vamos ajuda-lo melhor durante o tempo que estiver com o grupo... – Roberto fica em pé e confirma com a cabeça – Que bom! Palmas ao Roberto pessoal... Pode começar.
– É... Olá... Eu estou um pouco nervoso e acho que é muito difícil está aqui e realmente é... Então veja, eu não gostaria de está aqui... Bom... Mas preciso de ajuda. E o quanto é difícil assumir que preciso de ajuda... No meu problema eu estou tentando resolver sozinho, eu não quero buscar ajuda porque acredito que tenho o dom... Bom como vou dizer... Eu tenho um problema e acredito que ele se resolverá sozinho! É que meu dom ainda não se expressou, mas ele vai e ai não existirá mais nenhum problema para mim – Qual seu problema Roberto? –Pergunta à orientadora – Fale para todos, será bom pra você – Roberto olha nos olhos da orientadora e chega a dobrar as pernas para voltar a sentar. Vira seu rosto e olha a cadeira de ferro gelada esperando para ser sentada e assim acabar com tudo isto – Então... É difícil, mas eu tenho não tenho problema, quero que fique claro isto... Eu estou aqui porque eu preciso deixar sair meu dom, eu não preciso de ajuda para deixar sair meu dom... ­– E qual seu dom Roberto? – Pergunta à orientadora – Eu sou artista plástico, eu pinto quadros, eu faço algumas esculturas, mas meu dom que eu sei que tenho ainda não se manifestou, entendem? Eu faço minha arte mas ainda não vejo meu dom nelas, eu ainda não sinto meu dom se manifestando... O médico disse que era pra mim ir buscar ajudar em algum curso, aprender com um professor, agora pensei comigo: se eu for aprender com um professor ele pode moldar meu dom e o que eu iria fazer com meu dom, eu não vou mais conseguir fazer porque ele foi modulado, eu vou ficar com as técnicas do professor e meu dom? Eu não posso ir fazer isto, eu treino para meu dom se manifestar muitas vezes ao dia, eu estou sempre praticando e uma hora ele vai vir e vou fazer um grande quadro, uma belíssima escultura, vou ser reconhecido com minha arte vou ser artista plástico com meu dom!
– Desculpa te interromper – Disse um membro do grupo – mas como você sabe que tem algum dom?
– Eu sinto! Eu começo a pintar e sinto que minhas mãos estão trabalhando para algo, sabe? Eu olho os crochês da minha mãe e sei que está em meu sangue ser artista. – Roberto fica em silêncio por um tempo, depois olha sua volta e senta em sua cadeira gelada.
– Obrigado por compartilhar com o grupo Roberto! Espero que essa experiência ajude você á encontrar você mesmo. Bom pessoal... Vamos fazer uma pausa para o Coffee Break e depois retornaremos para minhas palavras finais, hoje vou ler uma carta apoio muito bacana... Fiquem para ouvir! Obrigado!