sábado, 25 de abril de 2015

Antes eu não te conhecia e agora meus olhos te veem

     No meio da agitação de pessoas, vejo-me cercado por quatro carrascos! Minutos atrás aconselhei aquele que discursa na multidão, incentivando-o em comandar aqueles que agora se preparam em lutar contra o absurdo. O cerco me faz afastar e por isto esbarro em um carrasco que me empurra em direção aos impiedosos e gritando: Código vermelho! Código Vermelho: vamos fazê-lo cair! Os cinco tiram seringas de suas cinturas. Na transparência das mesmas consigo ver o líquido vermelho. Preparam uma cilada e querem me derrubar, assustado não posso voltar mais atrás, sinto-me perseguido e encurralado... Quem são vocês? – Pergunto e eles continuam marchando em minha direção, seus rostos em expressão de ódio. Desesperado começo a me esquivar das tentativas de aplicação do líquido vermelho. Eles insistem em tentar me acertar, parecem se comunicar com os olhos, sinto que estão preparando uma emboscada e enquanto esses impiedosos me atacam, consigo ver um pequeno caminho livre à minha direita e corro. Corro como se não houvesse amanhã. O momento em que consigo perceber essa fragilidade e focar em minha fuga, em momento desesperador para não ser pego, continuo correndo, olho uma vez e outra para traz. Eles parecem divididos na perseguição e o caminho que tomei para minha fuga é confuso, me sinto em labirinto: no desconhecido. Serei pego? Penso. Seringas nas mãos, código vermelho, líquido vermelho, querem que eu caía, me desejam caído sobre o chão para passar sobre mim, querem me fazer de rua para continuar com seu absurdo. Correndo penso em me esconder para não ser pego e continuar. Me incentivo enquanto estou correndo para esquecer o cansaço, para não deixar o cansaço me dominar. Antes da curva mais um olhada para traz, respiro fundo, me distanciar e depois descansar, sair salvo. Porém ao voltar minha visão para frente, sinto uma pontada no peito. Olhando nos olhos do meu adversário que surgindo na curva do labirinto, no desconhecido caminho ele conseguiu efetivar sua cilada me atingiu. Meus últimos pensamentos: olhar para traz perante uma curva me custou ser pego. Onde tudo isto começou e onde acabou... Acuado me restou correr sem saber para onde ir, eu apenas não podia ficar parado sem reação perante o absurdo...

Corrupto complacente

Entre eles o não corrupto é trouxa e o não gentil é sem educação, ninguém gosta de pessoas sem educação!

Doce Balada

– Alice... Preciso falar com você. – Disse Alberto para Alice enquanto saem da sala de aula do curso de direito no intervalo das aulas na universidade. Mais à frente os outros três amigos que fazem parte do grupo mais sólido da sala. Eles estão sempre juntos dentro e fora da universidade. São conhecidos pelas festas que fazem na casa de um e de outro e, também pelas festas que frequentam. Alberto e Alice saem um pouco mais atrás dos outros amigos e pelo corredor Alberto conversa com Alice:
– Eu sei que prometemos nunca mais falar sobre isto. Mas é que hoje no metro eu encontrei com aquela menina da boate...
– Como assim Beto... Que menina? – Pergunta Alice.
– Aquela da boate... – Cara de interrogação de Alice – Do doce que...
– Porque está falando sobre isto Beto? – Interrompe Alice.
– Porque hoje eu a vi no metro, ela entrou sentou-se perto de mim. Eu me lembrei de tudo aquilo...
– Ela reconheceu você? – Alice para no meio do corredor e encara Alberto. Ele olha para o chão e responde:
– Não! Ela me olhou, mas acho que não me reconheceu...
– Acha Beto? Reconheceu ou não?
– Não! Imagina se ela reconhecesse, estaríamos mortos!
– Amanhã pega outro metro, sei lá... É a primeira vez que vê ela depois desses meses, talvez fosse só acaso mesmo...
– Eu me sinto mal pelo que fizemos Alice... – Alice olha de um lado para o outro do corredor e sai puxando Alberto até o final do corredor e entrando em um dos pátios abertos diz:
– Esquece isto! Ela não reconheceu você e nem vai reconhecer! Ficou anônimo aquilo!
– Será? Quando você encontrou com ela no banheiro, ela não ouviu seu nome, os nossos?
– Beto... Eu estava no celular falando com o traficante no banheiro. A gente tinha combinado de comprar e eu fui ligar para depois irmos buscar no ponto e ela ouviu a conversa, pediu pra ir junto, falou que queria experimentar, estava bêbada já e ninguém a convidou... Nem perguntamos o nome dela, lembra? Você perguntou quem era e eu falei que ela queria comprar e se comprássemos mais um, ganhávamos outro, era bom pra nós, depois ela tomou o dela no carro com a gente...
– E fizemos aquilo com ela... – Alberto interrompe.
– Vocês gostaram, vai me dizer que não? – Alice fala com um sorriso estranho.
– Alice... Aquilo foi errado! Aproveitamos dela por está fora de si... Não deveríamos ter feito aquilo, mas você deu a ideia e nos encorajou a fazer!
– Beto... Não coloca a culpa em mim, vocês transaram com a menina no seu carro. Vocês quatro fizeram isto! Vocês aproveitaram que ela não sabia nem onde estava... Estava totalmente pirada, fora de si e vocês aproveitaram...
– Sim Alice! E por isto me sinto mal... Não deveríamos ter feito aquilo, foi errado!
– Cara... Cai na real, ela não sabe nem o que aconteceu. Estava dobada, não teve reação enquanto vocês faziam com ela... Acho até que gostou, nem ligou... Sai dessa, não é porque ela te viu hoje que tudo vai acabar para nós... Foi uma noite, estávamos nos divertindo... Foi divertido, estamos em grupo, todos gostamos e talvez até ela gostou e se não gostou, não tem como falar nada, ela não sabe nossos nomes e vai ver nem nossos rostos e hoje se provou isto, ela viu você e não reconheceu, ficou na dela, esquece isto Beto!
– E se fosse com alguém que conhecemos Alice?
– Beto... Chega disso! Nem fala pros meninos sobre essa conversa, é besteira falar sobre isto! Ela nem reconheceu você... Já voltamos à boate e ela não estava... Vamos dar um tempo de voltar lá e esquece isto... Ela não existe pra nós!

Abundância para aquele que não tem

– Como é difícil encontrar você para conversar minha irmã... Quanto tempo, não?! – Disse assustando-a, passando do seu lado à sua frente com suas pernas cumpridas.
– Para algumas pessoas é difícil, porém converso com tantas, tenho tantos amigos... – Disse ela tirando-o da sua frente com suas grandes mãos em seu peito e ele ainda insiste em diálogo, porém agora conversando com suas costas:
– Você como me trata sempre. Éramos tão populares juntos na escola. Você mãozuda de uma letra linda que a professora cabeçuda ficava encantada... E eu, bem... Eu sempre fui pernudo, corria o recreio todo e ninguém me alcançava... Lembra quando representei o colégio?! Se não fosse eu, aquela escola nunca teria ganhado troféus! O diretor olhudo disse isto aos nossos pais certa vez... Mamãe braçuda e papai pézudo, como eles nos fizeram de tudo para continuarmos juntos e iguais.
– Nunca fomos iguais e eu ainda sou popular! Eu sempre fui à bonita, inteligente, engraçada e bem humorada da família... – Disse ela passando suas grandes mãos pelo cabelo, depois pelo rosto e por fim ajeitando seu broche.
– Agora você está parecendo o meu amigo bocudo, lembra-se dele? – Para pergunta passa à frente da irmã com suas longas pernas. Ela o olha e depois virando o rosto caminha analisando as vitrines. Ele agora caminha ao seu lado: hora olha mais à frente e hora olha para o rosto rosado de sua irmã, continua: Ele Adorava assoprar papel pelo tubo da caneta em você, ele era apaixonado, como todos eram por você. Era engraçado quando ele tentava acertar você e acabava por jogar o mais babado naquela sua amiga nariguda. O tempo... Vocês ainda são amigas?
– Não te interessa! O que você quer com essa conversa? – Agora ela para. O Cruzamento das avenidas e o sinal fechado. Ele volta com um passo cumprindo ficando mais uma vez atrás dela e continua:
– Lembra quando você fez aquela tolice com a merendeira corpuda? Como não foi engraçado... Só que seus talentos e com ajuda da supervisora do pátio orelhuda tudo se reverteu ao seu favor.
– Não fiz tolice alguma, foi azar um erro bobo que ninguém deu importância... E depois gostaram mais de mim e continuaram a prestar mais atenção em mim. Hoje tenho mais oportunidades que você, ganho mais dinheiro que você! – O sinal abre e ela avança falando: – Mateus foi você quem sempre fez tolices e continua sendo um tolo, quanta besteira você disse agora, me encontra depois de tanto tempo para falar besteiras... É por isto que eu sou o que sou e você, bem, você é o Mateus né... ­– Ela termina sua frase e continua, chega ao outro lado sem olhar para traz. E com isto ela nem percebeu que ele ficou parado, não cruzou atrás dela.