sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A vida continua....

      Eu nunca me apaixonei. Nunca conheci o amor! Que triste... Será que vou morrer sem nunca ter me apaixonado? Ainda sou jovem: quinze anos. Todos os meus quinze morei com minha avó. Ela não me respondeu quando perguntei se mamãe tinha me colocado aos cuidados dela pelo fato de estudar no colégio onde ela é diretora. Ou pelo fato de meu pai ter nos abandonado e ela sozinha não iria conseguir me criar... Minha rotina até esses dias era tão feliz. Como eu me sentia feliz há meses atrás... Assistindo novelas na companhia de minha avó ficava pensando que, quando eu me apaixonasse, seria igual, eu iria fazer igual, iria tratá-la bem... Aquilo tudo que eu assistia nas novelas me motiva encontrar alguém, ter uma namorada. Meses atrás eu estava procurando pelo amor: pelas ruas, na escola, minha vizinha, até onde antes não fazia sentido... Será essa minha paixão? Namorarei aquela? E essa, como chegar nela? ...Mas não era nenhuma delas. As vezes parecia que elas nem me notavam. E o amor nunca existiu. Mesmo aqui no hospital, eu fico pensando: talvez o amor está entre as enfermeiras, talvez eu conheça uma garota com a minha mesma doença, talvez outra, e vamos fica pensando em como poderíamos ajudar um ao outro, não importa, eu vou...

Em praça não alimente os pombos

      Por esses dias um amigo passou na praça em que eu estava lendo Shakespeare. As sombras das árvores sempre deixou-me a vontade para ler, o vento deixa fresco o local e o barulho nunca atrapalhou na leitura. Foi a primeira vez que ele falou comigo. Ele sempre passando e eu sempre lendo.
– Eu sempre passo por essa praça e o senhor está lendo Shakespeare. Acredito que o senhor é muito inteligente... – disse meu amigo com uma voz doce e tímida. Sorrimos um ao outro. Ambos parecemos ter a mesma idade, mesmo tamanho de corpo e rugas. Antes de lhe responde pensei: "Ele lê todos os dias a capa do meu livro? O que ele deseja? ...O Shakespeare, o local onde leio, o horário em que leio". Ele parado em minha frente, quase pronto para puxar uma cadeira e sentar-se na mesa em que leio. Porém tímido fica olhando-me esperando uma resposta. "Devo cultivar essa amizade? Não! Não sou de amizades com esses tipos". Pensei.
– Inteligente? O que você sabe sobre inteligência? Eu sou inteligente e por isto piso nas pessoas como se fossem cascas de ovos quebrando todos em mil pedaços! Piso em você também com meu ego enorme. E sempre consigo deixar todos constrangidos por rir na cara deles quebrados ao chão e as vezes até cuspo neles! – Falei alto, cuspindo essas palavras. Movimentava as mãos e nas ultimas palavras fechei os olhos e terminei minha fala. Tudo foi muito rápido...  "E agora, consegui deixar esse meu amigo que sempre passou por mim ofendido?" Pensei.
– Que absurdo de se ouvir! Você fica lendo como se fosse um velho rei...  Do que vive?
"Ele se sentiu ou não ofendido? Porque deseja saber sobre como vivo?" Pensei.
– Isto não lhe interessa amigo, deixei-me ler, você tira-me da leitura para futilidades?
– Você, você não deve passa de um velho aposentado ou talvez encostado por não aguentar trabalhar, não tem cara de rico! Eu só queria saber como consegue ficar lendo dia após dia em horário comercial e viver a vida...  Falou aumentando o tom de sua voz, antes doce e educado, agora pronto para sair os murros. Eu apenas sorri por ver sua ira e ele continuo  Mas não importa, vou trabalhar e deixar você com sua leitura de fresco. "Se eu lhe responder, se lhe oferecer mais resposta, estarei dando liberdade para aumentar sua ira ou nossa amizade, mas ele, ele jamais será meu amigo, jamais compreenderá como vivo e do que gozo, essas pessoas não podem fazer parte do meu círculo de amizade". Pensei
– De minha vida cuido eu! Continue como sempre o faz: passe contemplando e se vá amigo...  Sem mais interesse para discussão ele se foi. "Consegui... Consegui o que eu queria. Mais uma vez terei de mudar meu local de leitura? Não posso volta a ler em casa: os empregados, minha esposa, essas pessoas me sufoca. Os lugares que não posso ir e o que me resta? Essa cidade é grande, se precisar, ei de encontrar mais uma vez outro local para leitura". Pensei e voltei ao livro.
 

Difícil de entender


A classe social é uma forma de discriminação: onde eu posso e você não!