quinta-feira, 25 de abril de 2013

Imaginação Compartilhada

     De meus amigos, conversar com Vladimir é sempre uma aventura. Sua conversa é em parágrafos. Em pausas: a pausa é o termino do parágrafo que se reiniciará em breve, antes mesmo que eu ouse dizer ou até mesmo dizendo um “E” ou “É isto mesmo...” Ele reinicia. Talvez olhe e continue sem se importar que quase fosse interrompido. E me interrompe continuando assim por mais um ou dois parágrafos. É sempre uma aventura. Não preciso dizer muito. Sou convidado a participar da imaginação compartilhada. (...) Quando eu disse:
Contratarei uma empregada.
Mas, ela será gostosa?
     Porque é claro que você como mora sozinho e quer uma empregada, que ela seja gostosa; loira, morena, ruiva, mulata, mas, que seja gostosa!
    Daquelas com grandes peitos, bunda grande, pernas grossas, como as dançarinas de programas da TV, como as bailarinas da TV. Sim! Como as da TV...
     Que ela more em sua casa ou talvez, que chegue sempre antes do nascer do sol. Que o acorde, você gosta de ser acordado?
Ninguém gosta de...
É claro. Se ela ter de acordar você todos os dias que, faça isto de maneira educada...
     Sim! Talvez até carinhosa... Com massagem. Com massagem no seu peito. Massagem e uma voz suave, diferente da voz de sua mãe, como aquele: acorda moleque. Lembra-se disso? As mães nem sempre são carinhosas, bom...
     Se você estiver dormindo de lado, com massagem no braço. Que seja sempre com massagem. Uma massagem de manhã é sempre ótimo. Já pensou: massagem, suco e torradas... Ou prefere que ela apenas abra as cortinas?
     O sol que entrar pelo quarto... Apesar de que acordar com o sol invadindo o quarto é horrível. Melhor mesmo a massagem, suco e torradas... Há... Voz suave: Bom dia patrãozinho lindo, como dormiu? Quer uma massagem, em?
     E não pode esquecer de comprar aqueles uniformes, sabe? Olhando-me como se esperasse eu dizer algo, depois de uma pausa segue virando o rosto Aquele vestidinho curto... É, acho que você faz bem em contratar uma empregada. Uma empregada que faça tudo, se é que me entende...
Cara... Ela só será uma empregada! Não tenho mais sentimento por esta imaginação. Me despeço e vou embora! Ele enciste dizendo:
– Mas já? Fica mais, só tomamos uma cervejinha... – Digo que não dá, invento qualquer coisa e sei que da próxima vez quando me encontrar pelas ruas e bares terei de compartilhar da sua imaginação. Mas, ainda prefiro compartilhar de uma imaginação que está na TV ou na internet em sites de grandes visibilidades. Uma imaginação pior do que isto, tão pior que talvez eu nunca consiga entender. Mesmo depois de compartilhar o que absorvo dos programas de TV em conversa com amigos.

Cansa!

Cansei de cansar, agora quero descansar pra ficar cansado de descansar e começar a buscar um meio para me cansar!

Me sentindo muito sozinho

     Em um grande mercado no setor de almoxarifado, dois colegas de trabalho conversam:
– Cara... Estou apaixonado! – No primeiro minuto de trabalho com seu colega, Anderson, já tinha pensando em compartilhar seu estado de espírito, mas, por falta de oportunidade perante grande movimentação do trabalho, só agora, já quase na hora de saírem para o almoço eles conversam.
– HAHAHA... Por quem? – Diz o outro após uma gargalhada sadia. – Não é pela Renata né? (a caixa)
– Não! Eu conheci ela naquele meu trabalho de fins de semana...
– Como foi? Como ela é? – Diz o colega que trabalha e conversa ao mesmo tempo para não gerar problemas, enquanto Anderson, parece não se preocupar com isto e escora em uma das prateleiras.
– Ela sempre vai na lanchonete... Já faz dias que estou de olho nela, eu dei sorte que no sábado ela chegou com um amigo meu, ele mora no prédio da frente à kitnet que moro. Aproveitei para atender eles. Atendi normal: perguntei se ela estava bem, tal como sempre faço quando atendo ela, ela sempre me vê como um garçom é claro... E continuei ali por perto, fiquei puxando assunto com meu amigo, aproveitando é claro que eles estavam meio bêbados; ficavam falando pra mim tirar umas coisas da nota, coisa de amigo que quer aproveitar, falei que iria ver o que podia fazer e como ficaram enchendo o saco sai de perto e deixei eles comerem. Deu meu horário, eu saio as duas, fui saindo e ele perguntou pra onde eu ia, eu disse que iria pegar o buzão pra casa. Ele falou que me dava um carona, aí aceitei. Estava ele, sua namorada e ela...
– Entendo cara... Mais você pego ela?
– Sim! Sim! Tipo... Nem fomos pra casa! Saímos de lá e fomos ao posto, lá no 57 sabe?
– Sei sim! Sempre rola um som lá mesmo, o pessoal fica curtindo um som e tal...
– É! Então... Aí lá eu peguei ela... HAHAHA...  os dois sorriem – Na verdade ela me pegou!
– Como assim?
– É... Tipo, eu queria ir embora, estava cansado; já trabalho de segunda a sexta aqui e no fim de semana trabalho a noite, é foda!
– Sei... Mais como foi?
– Então... Eu lá quase dormindo encostado no carro, ela vem dançado toda louca e começa me beijar.– Seu colega ao ouvir, sorri como mona lisa; aquele meio sorriso e continua trabalhando, arruma prateleira, colocar mercadoria em outra. Anderson continua falando escorado na prateleira com sua vista pro tento, como se estivesse longe. – Foi demais!
– Só ficou nisto?
– É... A gente ficou se pegando por um tempo e depois a namorada do meu amigo quis ir embora, aí acabou tudo. Bom... Agora sei onde ela mora. É uma puta casa!
– Patricinha...
– É! Peguei o número dela. Liguei no domingo antes de entrar no trabalho, ela estava de ressaca, mas, conversou. Ficamos uns minutos conversando, mais sei lá... Ela parecia me responder por responder, não mostrou interesse, só respondia, nem perguntava nada, disse que faz faculdade de noite e depois disse vou desligar e desligou!
– Onde ela faz?
– Na mesma que você...
– Legal! Me mostra a foto dela no face aí, deixa eu ver se conheço ela... – Agora o colega de Anderson deixou de trabalhar e ficou na sua frente.
– Depois eu mostro... Agora fodeu cara!
– Por quê?
– Eu estou afim dela, quero continuar conversando com ela, mas, como vamos sair pra ficarmos? – Seu colega agora vê os olhos de Anderson ficarem vermelhos, parecem brilhar, ficam molhados e se ele piscasse, esfregasse com um dos dedos ou menos que isto, apenas abaixado à vista, talvez caísse dali alguma lágrima – Eu trabalho de segunda a sexta aqui e no fim de semana tenho que trabalhar na lanchonete. Aí não tem como a gente se ver, tipo... Sei lá se ela vai querer me ver também.
– Verdade cara... Por que não para de trabalhar no fim de semana?
– Seu eu parar como vou pagar minhas contas cara? Morar sozinho é foda!
– É! Mas me mostra a foto da gatinha aí...