quarta-feira, 28 de novembro de 2012

domingo, 25 de novembro de 2012

O observador do prédio em frente - I

     Nove horas da manhã e Davi acorda com o sol que invade à janela do seu apartamento no terceiro andar. O sol queima seus pés como despertador natural que invade pela janela larga e alta, ficando poucos centímetros do chão e bem próxima ao teto. Ela é dividida em duas partes: a primeira de baixo não abre; apenas a segunda acima abre para fora. Davi abre à janela e fica observando o movimento da rua abaixo por alguns minutos em pé. Aos sábados não trabalha, acaba por tomar café mais tarde na padaria da esquina e almoçar ou até melhor, jantar em lugares diferentes com seus variados amigos. Deixando o movimento da rua, ele entra no banheiro e enquanto escova os dentes repara que está ficando cada vez mais careca ao passar sua mão esquerda de sua testa até sua nuca. Após escovar os dentes encara seu espelho por certo tempo e depois passa a girar sua cabeça de um lado ao outro olhando para seu nariz que é fino como seus lábios. Davi faz uma careta e sorri sem motivo algum olhando pela última vez o espelho. Ele desliga à luz e sai do banheiro voltando para  janela de seu quarto onde observa mais uma vez o movimento da rua abaixo sentado com seus calcanhares junto a suas coxas e os braços cruzados em cima de seus joelhos. Olhando o movimento, lembra-se que ficou de passar algumas horas dessa tarde com sua mãe. Após certo tempo que passou observando, se levanta e vai tirar suas roupas de dormir. Ele deixa seu apartamento e caminha até o elevador que depois de sair do mesmo, passa pela portaria e cruzando a rua em direção à padaria para tomar seu café e comer um pão com muita mortadela. Davi passa ao lado da senhora Luzia que está na padaria em conversa com o padeiro. Ele passa ao lado da conversa e diz bom dia, eles também desejam bom dia. Enquanto come, ouve conversa da senhora Luzia com o Padeiro. A senhora Luzia de uns sessenta e seis anos com seu pouco cabelo de uma mescla de branco com cinza, de olhos fundos e faces caídas. Ela é proprietária do prédio onde Davi mora. O Padeiro é senhor de uns setenta anos de olhos azuis e bigode branco, que, passou a raspar sua cabeça quando ainda estava na casa dos quarentas anos para esconder sua calvície. Senhora Luzia adora conversar, nunca com estranho, mas, do elevador até à porta de seu apartamento, os vizinhos ou os meninos que vêm carregando suas compras, compartilham de noticiários e coisas corriqueiras do prédio. Desta vez o assunto dos velhos é sobre o menino filho do nosso porteiro que comeu cigarros do próprio pai, por um descuido do mesmo é claro. Ela conta que o porteiro deixou o maço de cigarros na mesinha de sua casa enquanto estava no banho e a mãe que deveria cuidar do menino e talvez por estar fazendo alguma coisa no fogão, esqueceu-se do pobre menino que pegou alguns cigarros e passou a comê-los. Ela conta que teve de socorrer os pais desesperados com o menino que vomitava sem parar. Depois de contar o ocorrido passou a falar mal do porteiro, querendo até despedi-lo por tal descuido com uma criança. É claro que o padeiro, faz gestos com as mãos e também concorda que tudo isto é um grande absurdo. Os dois velhos podem passar horas conversando. O pessoal mais antigo da vizinhança comenta que o padeiro sempre foi apaixonado por Luzia, mas ela depois que perdeu seu marido, ainda quando o padeiro não raspava seu cabelo, nunca mais quis saber de outro homem.
     Davi pede para o garçom marca em sua conta e sai pela calçada em direção à loja de flores. A loja de flores é de uma bela jovem, agora, será uma bela mãe. Quando Davi ainda estava na janela já notara Vitória que organizava suas flores por toda à loja que fica no prédio de frente ao seu apartamento. Agora passando pela porta de vidro com os seus cristais coloridos que anuncia Davi para Vitória, que o recebe com grande sorriso:
– Bom dia Davi!
Bom dia mamãe! E como está o garotão? – Vitória está grávida de sete meses, ainda ontem conversava com Davi sobre o barrigão. 
– Chutando minha barriga. Acho que está adivinhando chuva...
Será bom. Que assim seja!
E você está bem? – Pergunta Vitória que separa algumas margaridas na mesa de madeira de um verde desbotado.
Sim! Tudo ótimo... Vim para comprar umas flores pra mamãe...
Vai visitar sua mãe?
Sim!
Então vou fazer um arranjo de rosas pink, salmão e brancas, tudo bem? Acho que ela vai adorar!
Sim! Tudo bem...
     Vitória tem vinte e dois anos, veio do interior a coisa de três anos. Seu marido, Alberto, recebeu uma proposta de trabalho aqui na Capital. O primeiro ano do casal na capital foi difícil. Vitória aluga o salão do térreo de seu prédio e passa vender flores, seu marido trabalha como motorista. As coisas corriam bem até que Alberto fez algumas amizades e essas amizades acabaram por trazer um grande problema para o casal. Alberto depois de dois anos na capital foi pego em flagrante com uma grande quantidade de droga, acabou preso por tráfico. Vitória estava grávida de dois meses quando Alberto foi preso deixando ela sozinha com sua loja de flores. A mãe de Vitória que mora no interior vem sempre passar alguns dias cuidando da futura mamãe. Ontem mesmo em conversa com Davi, ela disse que sua mãe vai vir no domingo e irá ficar alguns dias cuidando da filha, futura mamãe.
Davi – Retorna Vitória com o buquê de flores depois de alguns minutos – Você só vai levar essas flores?
Sim! Acho que sim... Faz tempo que não vejo mamãe, acho que não preciso levar outra coisa, só as flores já está bom.
Davi... Todas as mulheres gostam de ganhar presentes. Por que não presenteá-la com um perfume?
Perfume? – Davi pega o buquê das mãos de Vitória e fica olhando seu rosto comprido com pequenos olhos verdes. Vitória está com seu cabelo loiro preso, uma blusa amarela de duas finas alças com pequenas rendas que também contorna o decote, suas pernas compridas em uma calça jeans azul. Davi pensa se deveria perguntar se ela está um pouco inchada ou apenas dizer que sua pele está mais clara que normal, em brilho! – Mais eu não sei qual perfume dar...
Cheira esse aqui. – Vitória chega perto de Davi, segura com sua mão direita a alça esquerda de sua blusa. Davi se aproxima para sentir o cheiro. Vitória está sem sutiã. Normal. Nunca usa mesmo. Seus seios agora maiores faz com que Davi fica vermelho por estar muito próximo de Vitória. Ele sente o cheiro e volta seu corpo pra trás.
É gostoso! Gostei, acho que vou comprar pra mamãe.
Então... Vou lá buscar e embrulhar pra presente. Ela vai adorar...
Espero que sim. Não é muito caro?
Eu adoro esse perfume. Alberto também adora ele. Você sabia que não são todas as mulheres que sabem passar perfume para serem amadas? – Vitória deixa Davi no centro da loja e sai falando até à lateral da loja junto ao que parece um freezer onde ela guarda as rosas. Ao lado tem um pequeno balcão branco de madeira e vidro, dentro dele tem várias caixas de perfumes e cremes.
Não! Como assim?
As mulheres que sabem ser amadas, sabem passar perfume. Primeiro: Perfume não se passa no pescoço e nem perto dos seios. Porque, qual homem que gosta de beijar o pescoço de uma mulher e sentir o gosto ruim do perfume na boca? Nenhum... Mulher que sabe ser beijada e amada sabe passar perfume. Não é verdade?
Nunca tinha pensado sobre isto... Ele não é caro né?
É que os homens nessas horas, nem ligam pra gosto ruim do perfume, eles só querem... Enfim, aqui está... Não Davi! Ele não é caro... E depois você me paga em duas vezes, é melhor assim?
     Davi e Vitória estão conversando um de frente ao outro no centro da loja ao lado de algumas mesas com vários arranjos de flores prontos para serem comprados. A loja é pequena, de poucos metros quadrados, porém, muito bem aproveitada por flores suspensas nas paredes, quadros de belos arranjos e um grande mural com muitas fotos. A mesa que Vitória usa para fazer seus arranjos, o balcão onde guarda seus produtos de venda e o freezer das rosas.
     Os cristais da porta soam. Entra um homem alto com aparência física forte de macacão azul e uma prancheta na mão. Vitória ao ouvir o barulho já olha pra receber seu cliente.
Bom dia! Em que posso ajudar?
Bom dia! Eu trabalho na loja de móveis: Menino Deus. Vim trazer um berço pra senhora Vitória, é a senhora mesma?
Sim sou eu. Eu vou pegar as chaves pra você.
     Vitória correu para pegar as chaves. O entregador tem olhar triste de olhos negros como seu cabelo e barba de fios compridos sem serem aparados há dias. O entregador parece não notar Davi, acabam por não trocar nenhuma palavra. Davi fica olhando ora paras flores e o perfume em suas mãos ora para tudo a sua volta. O entregador fica olhando o mural de fotos de Vitória até que ela retorna com as chaves.
Aqui... É essa chave aqui. Você abre a porta aqui na lateral e sobe as escadas. É o apartamento de número 4. Você já irá deixar montado certo?
Sim. Já vou montar ele agora. Então é só subir as escadas, o apartamento quatro?
Isso mesmo. Não repara a bagunça...
Em que lugar é pra montar?
Depois que passar pela porta segue o corredor, passa pela porta da direita, passa pela cozinha e a sala. O quarto vai ficar na sua esquerda de frente pra sala.
Tudo bem...
     O entregador e também montador sai com as chaves. Davi se despede de Vitória e sai com as flores e o perfume nas mãos. Davi ficou feliz com sua manhã. Ao caminhar de volta ao seu apartamento o sorriso de seus lábios finos transcendem pela entrada do prédio. A senhora Luzia que estava conversando com o porteiro, pede para que Davi segure o elevador para ela. Ela entra e fala bom dia para Davi. Davi lhe responde com o mesmo sorriso que ainda não saio de sua face. As portas se encontram. Luzia olha pra Davi e começa:
Você ficou sabendo do filho do nosso porteiro?
Sim! Ouvi falar um pouco sobre isto...
Que absurdo! Uma irresponsabilidade muito grande! Uma criança... Como podem deixar uma criança sozinha, não cuidam, não cuidam!
     Davi fica mudo e só concorda com sua cabeça. O elevador sobe e Luzia continua:
É esse mundo de hoje! Você viu?! Tem um serial killer matando mulheres, esse mundo está perdido! Ninguém acredita mais em Deus, esses jovens de hoje em dia, é tudo um absurdo, é tudo um grande absurdo!
     Luzia mora no último andar, o mesmo de Davi. O elevador para e as portas se abrem. Luzia continua falando e caminhando pelo corredor ao lado de Davi até chegar ao seu apartamento onde fica pra trás abrindo a porta. Quando ela entra, Davi inspira aliviado de frente sua porta. Ele entra coloca as rosas e o perfume sobre a mesa, vai na geladeira pega um copo d’água e olha no relógio da sala que marca meio dia.  
     Davi ficou em seu apartamento até às duas da tarde. Comeu alguma coisa da geladeira, ligou o computador e marcou de encontrar com alguns amigos mais tarde depois que visitasse sua mãe. Às duas horas, correu pegou a chave de seu carro e foi ao encontro de sua mãe. A muito tinha deixado de morar com os seus pais que, quando o filho foi morar sozinho por certa independência financeira adquirida ao trabalhar na empresa de seu Tio, os pais de Davi se separaram. O pai mudou de Estado indo embora com uma mulher mais nova, amante há muito tempo dele. A mãe ficou sozinha onde hoje fez um bolo de chocolate para o filho. A mãe de Davi, Eugenia, mulher de cinquenta e quatro anos, com uma saúde um pouco frágil com seu diabetes e problema do coração que agora bateu mais forte encostado ao peito do filho com o abraço do qual seus olhos brilharam por certo tempo, ainda mais com o carinho do filho, as rosas e o perfume como presente. Depois que entregou e passou a conversar com sua mãe, pensou em Vitória que lhe ajudou indicando o perfume como presente. Mãe e filho passaram horas conversando, naquele dia eles tinham muitos assuntos e muitos sorrisos para compartilhar. Ele ficou até as sete com sua mãe que já estava preparando o jantar, o que no final do encontro despertou uma pequena tristeza ao ver que o filho não iria ficar para o jantar. Ficou prometido para dias futuros. Davi vai ao encontro de seus amigos. Na verdade é o primeiro a chegar. Fica até as nove na mesa tomando entre um chopp e outro até que chegam seus amigos e amigas, os casais. O papo ficou um pouco limitado com as mulheres na mesa. Cercado por três casais e só ele ali... Isto o deixou um pouco desanimado, mais em pensamentos do que em conversa. As onze e alguns minutos deixou seus amigos. Só percebeu que o bebê, o garotão de Vitória, adivinhou mesmo a chuva, quando saio do restaurante estava caindo do céu negro muita água. Entrou no carro e torceu para não cair em nenhuma blitz, afinal, tinha passado um pouco dos limites com os chopps.  Dirigiu muito mal, a chuva e a bebida fez de sua noite, uma péssima noite. Ao chegar próximo da entrada do prédio percebeu um vulto que se metera entre uma arvore e o lugar onde se coloca o lixo. Chegou até a parar o carro e ficar olhando por certo tempo. No fim resolveu consigo mesmo deveria mesmo é ir dormir.
     Ao entrar no seu apartamento o vento chacoalhava suas cortinas. Aproximou-se da janela e olhou para o prédio de Vitória. O relógio de seu pulso marca meia noite e ela ainda não foi dormir. Sabe disso, pois sempre quando ela vai dormir apaga todas as luzes e agora à luz da sala ainda está acesa. Fechando à janela ele foi até o seu computador que o liga. Enquanto sua maquina antiga inicia, vai até a geladeira pegar um copo d’água. Um pouco da chuva que caiu sobre sua cabeça pode ter clareado suas ideia. Ele volta e senta-se em frente ao computador para navegar pela imensidão da internet que no vasto campo dessa mesma imensidão, só abre uma pagina, a de seus emails e apenas um novo email aparece para ser lido. O titulo é estranho e desperta curiosidade em Davi. Email:

Nós criamos uma grande ilusão?

     Estou escrevendo na coluna dia a dia que é semanal do Jornal MarxFree também semanal de um grande amigo meu, este é o meu primeiro texto que escrevo e espero que seja o primeiro de muitos. Obrigado!
     A ilusão é a realidade para a maioria das pessoas? Por que derrubar milhares de arvores para a agricultura se os alimentos não serão distribuídos para os milhões de pessoas no mundo que estão morrendo de fome? Por que cobrar tantos impostos, e depois com este orçamento gastá-lo com armas e exércitos, se usados, destruirão a nossa civilização? Existe algum sentido em ensinar às crianças as virtudes cristãs da humildade e do desprendimento e, ao mesmo tempo, prepará-las para uma vida na qual o oposto a essas virtudes constitui uma necessidade para o êxito? Tem sentido em vivermos em meio a abundancia, sem segurança no sistema que não assegura nosso bem estar, nossa segurança de sair para o trabalho e retornar? Quais são essas ideologias que nos são impostos? Uma ilusão de nosso aborrecimento irônico?
      Todas essas ideologias são impostas desde a infância, pelos pais, escolas, igrejas, cinema, televisão, jornais e se apossam da mente dos homens como se fossem resultados do pensamento e da observação de cada um. Como este texto que adaptei para não ser uma criação deste colunista. Era apenas uma ilusão para o leitor e para mim mesmo, como se todas essas perguntas fossem criadas por eu e não por Erich Formm.   

Abraço.
     Davi leu todo o email. Desligou o computador e levantou-se, caminhou até a janela, olhou para o apartamento de Vitória e viu sua luz se apagar. Jogou seu corpo contra o coxão e lembrou-se de tirar os sapatos e com os pés passou a tira-los. Olhou para sua camisa e sua calça e não fez questão de se levantar e tirar. Virou-se de lado e passou a olhar o ponteiro maior de seu relógio do pulso até que o sono o leve para os sonhos ou pesadelos, se tiver sorte, apenas irá dormir.
     Vitória depois que fechou a loja não saio de casa. Ficou arrumando o quarto de seu bebê e depois foi limpar o seu apartamento. Quando a noite surgiu ela fez sua janta e só assistiu Tv. Até pouco tempo ainda estava assistindo, mas, enquanto chove ela está sentada na cadeira de balanço branca lendo um livro com o titulo de: Mãe pela primeira vez? O texto eu não vou citar aqui, é bem provável que seja um belo texto, nada comparado com o homem que está na porta do quarto. Vitória assustou-se. Colocou sua mão sobre a barriga e perguntou ao homem o que ele estava fazendo em pé ali na porta do quarto. Ele não respondeu avançando sobre ela com uma faca na mão direita. Quando ele avançou alguns passos na direção de Vitória, ela o reconheceu. Era o mesmo entregador/montador de hoje pela manhã. Ela se levantou da cadeira jogando o livro contra ele e foi tentar correr em direção ao banheiro que fica dentro do quarto. Quando estava chegando perto da porta do banheiro foi puxada pelo cabelo. Ela girou seu corpo para bater com sua mão no homem, mas, quando se virou a faca passou em seu pescoço. Ela não gritou. Seus olhos saltaram para fora, sua boca abriu e o sangue escorreu pelos lados. Sua face estava em horror. Seus olhos saltados como buscando alguma coisa, olhavam para o homem. O homem está com manchas de sangue pela face, braços e em algumas partes de seu corpo. O sangue quente de Vitória salta com pressão e ao mesmo tempo escorre pelo seu vestido de borboletas coloridas. O homem solta o cabelo de Vitória e seu corpo cai rápido no chão frio. Ele fica olhando Vitória que tenta de alguma forma buscar sua vida. Ele continua olhando para ela esperando que seu corpo se fixe como seus olhos estão fixos em alguma estrela do teto do quarto no qual foi pintado de azul com várias estrelas brancas. Após ver com seus olhos a vida de Vitória que a deixou, ele coloca a faca no chão ao lado do corpo e passa a esticar os braços de Vitória como faz com suas pernas deixando a direita em cima da esquerda nas canelas. Vitória é arrumada no chão como se tivesse em uma cruz. Após mexer no corpo, o homem, pega a faca e corta seu vestido de cima a baixo. O vestido é aberto mostrando o corpo nu de Vitória. Ele se ajoelha deixando os joelhos de cada lado do corpo, pega a faca ao lado com a lamina para si erguendo-a na altura de seu peito e solta com força entre os seios de Vitória. Ele puxa a faca até cinco ou sete dedos depois do umbigo. Levanta a faca novamente e partindo do umbigo faz um corte para a direita e outro para a esquerda. Esses cortes abertos faz com que o bebê e alguns órgãos sejam cortados e fiquem expostos. Os cortes formam uma cruz de cabeça pra baixo. O homem se levanta sobre o corpo e olha o bebê de Vitória que faz alguns movimentos. Ele caminha até o banheiro onde se lava e fica por um período de tempo com as mãos na água corrente. Depois lava seu rosto e sai do banheiro, passa pelo quarto sem olhar para o corpo de Vitória, chega à sala, desliga a Tv e caminha pelo corredor. Ao chegar à porta, olha pra trás e antes de fecha-la, desliga à luz.

O observador do prédio em frente - II


     Nove horas da manhã e Davi acorda com o sol que invade a janela lateral do seu apartamento no terceiro andar. O sol queima seus pés como despertador natural de seu quarto. Davi levanta e abrindo a janela fica observando a rua abaixo que não tem nenhum movimento no domingo. Os domingos são sempre desanimadores para Davi, ou acorda de ressaca ou acorda sem motivo nenhum para se pensar em fazer alguma coisa. Acaba por assistir Tv o dia todo ou fica no computador. As horas passam de vagar. Seu almoço é alguma coisa industrial e sua janta, nem ele faz ideia do que irá comprar.
     Quinze horas e alguns minutos.  Davi estava cochilando no sofá na sala com a Tv em algum canal sobre alguma coisa.  Gritos acorda Davi. Ele olha da janela de seu quarto e uma mulher desesperada corre pela rua em direção ao seu prédio e pouco tempo depois o porteiro de seu prédio vai ao apartamento de Vitória e sai do mesmo falando ao celular. Davi fica em sua janela até que vários carros da polícia cercam a rua e o número de pessoas em frente aos prédios começa a aumentar, ele não aguenta de curiosidade e desce para ver o que está acontecendo. Ao chegar à rua ele olha para uma multidão de pessoas e a primeira mulher que ele viu saindo aos gritos, com suas mãos ao céu, ainda está chorando e falando o tempo todo abraçada com Luzia: – O que fizeram com minha menina? – O que fizeram? – Por que Deus, por quê? Davi se aproxima e pergunta o que aconteceu. Pergunta para três pessoas que não conhecia e essas três falaram a mesma coisa: – Mataram Vitória! Davi coloca as mãos na cabeça e corre para entrar no prédio. Na porta é parado por alguns policiais que não deixa ninguém passar. Ele fala que quer ver Vitória, que conhece ela, que é seu amigo. Nisto o carro do IML chega e os profissionais entram no prédio. As únicas pessoas que viram o corpo de Vitória foram os profissionais, o porteiro e a senhora que chora sem parar, que tempo depois Davi soube que ela é mãe de Vitória. Entre as pessoas que cercam o prédio, o porteiro conta como encontrou o corpo, conta para todos e todos fazem questão de ouvir dele sobre a posição do corpo, os cortes, o sangue preto e o feto, ele diz feto e não bebê, e de como os olhos de Vitória estavam horrivelmente abertos. Davi para de ouvir e sai em direção ao seu prédio. Enquanto caminha passa mais uma vez pela mãe de Vitória que entra no carro da polícia. Ela estava muito abalada, Luzia o tempo todo ficou ao seu lado.  Ele olhou para ela e abaixou a cabeça correndo sem parar até o elevador de seu prédio. Quando entrou e apertou o botão de seu andar, colocou suas mãos na porta fechada e ficou com parte de seu corpo inclinado pra baixo. A porta se abre, ele levantou-se e sai caminhando com passos lentos até a porta do apartamento, na mesma demorou em encontrar as chaves no seu bolso, quando encontrou, demorou também para conseguir encaixar a chave no lugar certo. – É como se eu estivesse bêbado! Passou pela sua cabeça. Depois que abriu a porta o barulho de várias sirenes voltaram ao seu máximo, ele correu até a janela e a fechou com tanta força que após ela se fechar, ele foi jogado de costas ao chão. Ele caiu e ficou. Nisto correu vários minutos enquanto ele nada se movia no chão de barriga pra cima e os braços abertos. Pela sua cabeça passava várias coisas, depois de muito olhar para cima, ele encolhe seu corpo em posição fetal com seus joelhos dobrados, leva suas mãos os olhos e passa apertar fortemente enquanto pensa consigo mesmo: – Eu quero chorar, eu quero chorar! Mas neste tempo todo não chorou, o que o fez sentir raiva, sentiu uma coisa horrível dentro de si, bateu com as palmas de suas mãos no chão, bateu até que elas doessem, depois de um tempo parou e passou a olha-las e elas estavam vermelhas. Passou alguns segundos olhando para elas até que um grito saiu pela sua boca que se abriu e depois que o gritou cessou, passou a vomitar. Esse primeiro vômito foi tão inesperado e rápido que nem o sentiu saindo pela sua boca, já na segunda vez em que vomitou e as outras tantas eram como se alguém estivesse puxando tudo aquilo que saia de dentro de si para fora. Davi depois que vomitou, levantou-se e foi ao banheiro. Parou de frente ao espelho e pensou:  Eu tentei chorar! Eu desejei chorar! Eu queria ver minha tristeza, meu sofrimento em minhas lágrimas. Mas, eu devo ter chorado muito quando criança! Devo ter chorado por bobagens, que essas bobagens não mereciam meu choro, eram apenas bobagens! Agora me tornei forte, não consigo nem mais chorar. Agora sou homem! Agora não choro mais e eu desejei chorar por ela... Eu tentei chorar por ela e ver escorrer dos meus olhos lágrimas, mas agora sou realmente homem e não consigo chorar!
      Davi pensou tudo isto parado olhando sua imagem no espelho. Seus olhos castanhos nem vermelhos estavam. Ele tomou um banho na água quente e depois foi ao seu quarto limpar todo aquele vômito, depois que limpou ficou certo tempo sentado com um copo d’água sobre a mesa na cozinha. As horas passaram de vagar, em nenhum momento Davi olho para o relógio, só percebeu que muito tempo já tinha se passado depois de tanto refletir na mesa com toda sua cozinha escura, todo seu apartamento estava em silêncio e escuro. Ele levantou-se e sentiu que uma de suas pernas estava dormente, andando de vagar, chegou-se em sua cama e deitou-se. Sua noite foi agitada, teve terríveis pesadelos, sonhando com Vitória que aparecia em sonho pedindo socorro e ele lutava contra um homem mais forte que ele, que o deixava caído de joelhos no chão não conseguindo salvar Vitória. Depois de certo tempo acordou com frio, com seu corpo suado e tremendo. Ele levantou e foi pegar uma manta e lençol para cobrir-se e voltar a dormir. Dormia cinco minutos e mais pesadelos, pesadelos que o fazia despertar de minutos em minutos, até que não aguentou mais, ligou a Tv. Segurou-se acordado o quando pode, mas, depois de alguns minutos caiu em sono novamente e ficou assim, dormindo e acordando até às seis da manhã quando ligou para seu Tio que o liberou para ir ao médico ou aonde quisesse ir durante o dia, que buscasse ficar bem. Davi ainda tremia embaixo do chuveiro que depois do banho colocou uma roupa qualquer e saio pelo prédio, já na portaria pegou um táxi e foi à delegacia de polícia, teve sorte de encontrar o delegado na calçada junto com vários policiais que pareciam ouvir ordens do mesmo. Davi não conhecia o delegado, mas, ali no primeiro momento ao descer do taxi viu aquele homem pequeno, de terno, que todos os policiais estavam ouvindo, não teve duvidas e no primeiro momento que ficou próximo tentou agarrar o delegado que percebeu Davi antes e o jogou contra a parede da delegacia sacando sua arma. Davi assustou-se, fechou seus olhos e disse que estava buscando apenas justiça. Os policiais cercaram Davi que cai sobre o chão e passa a tremer. Todos olham para ele sem dizer nada, ele ergue sua mão direita e diz:
 Justiça! Eu quero justiça!
     Após dizer isto, desmaiou-se.  Ali mesmo no chão pelo lado de fora recebeu o atendimento dos bombeiros. Todos ficaram de olho nele. Quando ele acordou ficou mais assustado com a delegacia que estava muito agitada, talvez seja sempre assim, mas, essa é a primeira vez de Davi em uma delegacia. Ele olhou para todos e quando o pegaram e o colocaram sobre a maca para encaminhar para o hospital, ele gritou:
 Não! Eu não vou até que peguem quem matou Vitória, minha pobre Vitória, mataram a pequena! Mataram a pequena e seu pequeno bebê!
     Não deram ouvidos, já estavam todos saindo de perto para que o Davi fosse levado ao hospital. Perto da ambulância, Davi grita mais uma vez:
 Eu sei quem matou ela! Eu sei! Eu sei, eu o vi nos meus sonhos, eu vi aqueles, aqueles olhos pretos, aqueles mesmos olhos pretos, eu vi! Eu vi!
     O delegado que estava caminhando para dentro da delegacia e ouve os gritos de Davi. Voltou antes que fechassem as portas da ambulância e disse:
 Esperem! Esperem! O que você está falando?
Não de ouvidos senhor. Ele está delirando, é normal com a febre.  Disse um dos que levava Davi.
Espere. Mesmo assim, deixe ele falar... – O delegado entrou na ambulância e sentou-se perto de Davi.
Eu vi ele... Ele foi comprar flores! Não! Espere... Não! Ele foi montar o berço. O berço do bebê, ele foi montar eu o vi! – Davi tentou sentar na maca, mas, não deixaram. Sua voz está fraca, de todas as palavras que falou, poucas saíram inteiras sem corte no início ou no fim.
Eu não disse, ele está louco! Vamos dar um calmante pra ele.
Esse que você viu, como ele é? – Perguntou o Delegado que colocou seu ouvido junto à boca de Davi.
Ele é mo-re-no, al-to e for-te... Tem muito barba. Os olhos, os... olhos... São pretos, pretos e frios!

     Ao ouvir Davi, o delegado chamou um policial de dentro da delegacia. Esse chegou-se perto da ambulância e ouviu o delegado que pediu para que ele trouxesse o relato de uma testemunha da terceira vítima. Ele trouxe e o delegado leu as mesmas características que Davi estava falando. Ele perguntou se Davi sabia mais alguma coisa, o nome do homem ou alguma outra informação. Davi ficou por certo tempo olhando para uma luz no teto da ambulância. O delegado o chacoalha e ele volta a si. Olhou para o delegado e disse lembrar-se de uma coisa, talvez o nome da loja e ao falar isto olhou para suas mãos e disse o nome da loja: Menino Deus. Após dizer, passou a tremer em convulsão, seus olhos virou-se e passou a enrolar a língua. Os bombeiros correram com Davi para o Hospital. O delegado agora tem informação necessária para pegar o Serial Killer. O delegado que antes de Davi chegar estava passando certas ordens, agora teve de mudar tudo. Nisto ele perdeu certo tempo, mas, correu até a loja para tomar as medidas necessárias para prender o montador/entregador. Ao chegar à loja, o delegado teve sorte do mesmo está ali e não ter saído para suas entregas diárias. Ali mesmo após receber voz de prisão ele disse que já esperava por eles, sabia que um dia eles viriam, só não sabia depois de quantas vítimas. Na delegacia o homem confessou todos os cincos assassinatos. Disse que só matou mulheres grávidas porque tinha perdido sua mulher há pouco tempo e ela estava grávida. Sobre o ritual de colocar os corpos como se estivessem em cruz e fazer os cortes da cruz virada de cabeça pra baixo, era uma maneira de protestar com Deus. Falou que sua mulher era católica quando ele a conheceu, que ele não gostava de ir à igreja com ela, mas, ela gostava de ir sempre, até que ao sair da igreja foi atropelada com o motorista que matou ela e seu filho fugindo do local. Depois disso, não aguentou mais esse Deus que tinha tirado sua mulher e seu filho e foi fazer isto contra todas as mulheres grávidas que encontra-se pelo caminho até que Deus fizesse ele parar. Seu ritual era sempre o mesmo, mata e depois lava as mãos, como se limpando para continuar matando.
     Davi ficou uma semana no hospital. Durante esse tempo só dormiu e falou muito pouco. Se teve pesadelos com Vitória não contou para sua mãe, que ficou a semana inteira com ele sem sair nenhum dia de perto do filho. Talvez com o tempo as coisas voltem ao normal se já não voltou após essa primeira semana.