sexta-feira, 15 de junho de 2012

A tênue entre uno e múltiplo

     O cemitério Coração de Maria ao meu lado esquerdo. Sempre quando o sinal está vermelho neste cruzamento acabo por ficar olhando, procurando, por anjos ou cruzes quebradas. No ônibus, somente eu e o casal de apaixonados em bancos à frente. O sujeito – não tive tempo para perguntar seu nome – que estava sentando ao meu lado e as outras pessoas. Ele estava bem no blazer, camisa xadrez e óculos redondo. Desceu no ponto perto do shopping com as outras pessoas, me deixando aqui com o casal de namorados: Romeu e Julieta.  A mochila rosa no chão do ônibus e mais um fim de semana juntos na casa dos pais de Romeu. E se eles tivessem escutado ou prestado atenção no que aquele sujeito falava... “Nós humanos, temos nossos próprios sonhos de mundo perfeito ou vida perfeita em nossos olhos. Talvez inspirada em alguns artistas, empresários, milionários, etc... Mas, o quanto perfeito é em meus olhos a desgraça de seres que sonham com o mesmo mundo perfeito, vida perfeita, onde talvez não houvesse desgraças alheias. Em um mundo perfeito onde as pessoas não sofressem. Sofrer na fila de hospitais. Sofrer na espera de meses para cirurgia. Sofrer por não ter condições de pagar o tratamento. Sofrer por passar fome. Sofrer na espera de melhorias que nunca chegam. Deveríamos sofrer apenas por ciúmes, amor não correspondido, falta de amor, na perda das pessoas que amamos. Só deveríamos sofrer nestas ocasiões.”
     Ele não exaltou sua voz comigo em nenhum momento. Nem mesmo quando fui defender a democracia. Ele me olhava nos olhos. Deixava eu terminar minhas frases, minhas palavras. Depois que eu terminava ele voltava ao seu discurso. Em certos tempos na viagem, vi por duas vezes à senhora que estava no banco ao lado olhá-lo com preocupação. Será que todos estavam ouvindo o que ele me dizia? “Ditadura. Revolução. Comunismo. Capitalismo. – O comunismo não corresponde ao capitalismo pós-moderno. A luta pelo poder. A luta pela Política para todos. A luta para quê a política exerça o poder e não o poder exerça política. O mais importante não é o trabalho é o consumo. Somos vitimas da pluralidade. O laço humano ficou fraco. Na pluralidade de consumo, o laço que nos une é da classe social. Estamos sem valor fixo.”
     Romeu e Julieta. O toque do celular de Julieta me desperta. Toque este que afasta Romeu. Pelas caretas que ela faz essa conversa não deve ser boa. Ela chama com sua mãozinha Romeu. Romeu beija sua boca enquanto ela ouve algo no telefone. Para ela responder Romeu beija seu pescoço. Julieta e Romeu, mais um semáforo e desceremos. “Eu posso ser um alienado. Não existe mal algum em ser alienado para o bem. Não somos todos?! Deixamos de usar sacolinhas, tomamos banhos de cinco minutos, adotamos cachorros e defendemos todos os animais. Estamos todos lutando pelo nosso planeta. Somos todos politicamente corretos. Essa alienação para o bem humano. Mas, está escrito que o bem existe. Que é preciso ser honesto, que não devemos mentir etc., etc... E também está escrito que nada pode salvar o homem de si próprio. Porque mesmo se D'eu's existe ele não poderia fazer nada. É por isto que não posso dizer que sei ou conheço o que é melhor para o outro, porque quando conheço o outro, estou sempre pronto para discordar em alguma coisa...”
     Como quando ele parou de falar pra descer, agora é minha vez de descer. Estou no caminho. Será que eu devo dar uma moeda para o primeiro mendigo que aparecer? Não! Isto não é um ato responsável. Não posso reduzir esse mendigo em minha moeda. Quanto ético é buscar algo com significado? Eu admito que não entendo completamente tudo o que... É necessário não entender. Porque não é pelo que eu entendo que eu quero viver, é... Por nada, por nada, só porque vivo.