terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Sessão de Terapia

     Após ele entrar pela sala escura e fria, aperta minha mão com impaciência e deita no divã. Eu sento na poltrona e dou início para ouvi-lo:
 
– Como das duas últimas vezes quero que fale o que lhe vem à cabeça.
– Hoje me peguei pensando mais uma vez se vale apena. Como é tão complicado!
     Uma pausa...
– Não existe o silêncio total! Em qualquer lugar que você esteja sempre haverá algum som, nunca o silêncio total. Esse som dentro da cabeça... Esse som que não cessa nunca, essa fala, esse discurso, essas teorias, essas lembranças, mas, cadê o silêncio? Quando eu fico só, quando essa voz fica só comigo, essa voz aqui dentro me priva do silêncio...
     Mais uma pausa... Ele deita sobre o ombro direito me dando as costas e passa olha uma fresta de luz que passa entre janela e cortina parando na parede e, recomeça com sua mão esquerda sobre a boca:
 – Um beijo pode salvar o dia inteiro! Como apenas um beijo curto e de olhos fechados, aquele em que o outro dentro de você te abandona naquele espaço curto de tempo, sem som... Silêncio... E o beijo... A mão no rosto... A mão com o perfume dela. Eu fico passando, passando pelo meu nariz e sinto o perfume e isto se torna viciante, fico passando lentamente e o cheiro me entorpece trazendo silêncio... Sem ela e seus beijos não existe silêncio interno!

O Hotel

     Eu sou um vendedor e tenho várias histórias para contar sobre minhas andanças pelo meu país. Passo maior parte dos meus dias nas rodovias e em comércios pelas cidades. Estou há muito tempo no mercado e por isto tenho uma rotina de viagens onde quase sempre estou nas mesmas cidades com os mesmos comerciantes. O lugar onde se passa esta minha história é uma cidade que visito poucas vezes ao ano. Ela é uma mega cidade que ainda tenho muito que explorar, mas, por eu ser um pequeno vendedor – mesmo com anos no mercado – paro em algumas burocracias do comércio que só quem está por dentro sabe do que estou falando.

     A história não é sobre falcatruas e sim sobre um hotel modesto de uma rua de pouco movimento cercado por casas antigas e comércios antigos. Cheguei ao Hotel por acaso, estava procurando por uma loja e acabei por perder muito tempo pelo bairro sem conseguir localizar à loja. As pessoas da qual procurei ajuda pelas ruas, não me ajudaram. Já era umas sete horas e como eu não gosto de viajar a noite, resolvi ficar por ali mesmo e no outro dia pela manhã talvez eu voltasse a procurar pela loja ou iria seguir minha rotina.

     O hotel é bem velho, suas paredes estão desbotadas e apenas um letreiro de neon antigo informa que ali é um hotel. A garagem é muito pequena, cabem poucos carros e não tem portão ou segurança o que me deixou com um pouco de medo ao deixar meu pequeno caminhão tão exposto. Na recepção fui atendido por uma mulher de uns quarentas anos, de estatura baixa e bastante gorda que conforme falava, suava o rosto todo. O ventilador de frente (distante e de um barulho estranho) pregado na parede e o outro dentro do balcão parecia não amenizar sua situação. O balcão estava bem bagunçado com papeis, umas listas telefônicas e um livro do Paulo Coelho de nome estranho Maktub com o marcador já pelo final. A recepcionista usava um short jeans e chinelos, sua camiseta de um rosa desbotado estava com manchas de suor. Ela foi atenciosa, disse que eu tinha dado sorte porque aquele era o último quarto disponível do hotel. Ela não quis saber muito, só perguntou meu nome, não olhou documentos ou coisa do tipo, depois de me passar as chaves disse que na sala da recepção também era usada para tomar café da manhã que eu já tinha percebido isto ao entrar pela porta e ver umas três mesas com cinco cadeiras em cada mesa e ao lado do balcão uma cadeira de descanso de fios.

     Ao sair da recepção caminhei por um corredor estreito e muito longo cercado por quartos a minha direita e um muro muito alto na minha esquerda. Esse corredor vai até o último quarto de número dez que no fim uma escada leva ao segundo andar somando mais quartos. O quarto em que fiquei era o de número cinco, bem simples com uma cama de casal, uma geladeira pequena e velha e um armário de madeira de duas portas. Ao entrar liguei o ar e a TV que fica pregada na parede. Depois que me organizei, liguei a geladeira que fez um barulho estranho, barulho por ser antiga demais. Ao entrar no banheiro me senti muito alto, maior do que realmente sou. Ao usar a pia tive de ficar completamente curvado, quando fui tomar banho caiu mais água na parede do que em mim. – O banheiro foi projetado para anões, só pode! Pensei comigo mesmo com todo aquele desconforto.
      Enquanto assistia TV deitado na cama as horas passaram. Era umas nove ou nove e meia quando fui sair pelo bairro procurando por alguma lanchonete ou restaurante.  Passei pela recepção e ao chegar no balcão uma senhora de uns oitenta à noventa anos estava deitada na cadeira de fios com um vestido branco, seus fios do cabelo também branco da um aspecto de palidez em seu rosto. Eu fiquei por um curto espaço de tempo olhando pra ela e ela parecia não respirar. Entreguei as chaves para a recepcionista e sai com meu caminhão pela rua. Não precisei procurar muito e acabei por entrar em uma lanchonete de uns japoneses.

     Ao voltar pro hotel a recepcionista ainda estava usando a mesma roupa e continuava a suar muito. A senhora que outra hora estava na cadeira de descanso, talvez já tivesse voltado ao seu quarto deixando a cadeira vazia. Quando caminhei pelo corredor passou um menino por mim correndo. Falei pra ele ir de vagar que não precisava correr, ele nem olhou para trás, talvez nem tenha escutado ou fingiu não escutar e continuou subindo as escadas ainda correndo.

     Entrei no quarto e me preparei para dormir. A geladeira ligava e desligava de cinco em cinco minutos fazendo aquele barulho estranho. Fiquei da cama assistindo TV até que eu dormisse. O sono veio rápido, em poucos minutos eu já estava dormindo.

     Agora vem a parte muito estranha daquela noite. Como eu disse dormi rápido. Deixei a TV ligada e deitei virado para à parede. Com o passar do tempo tive uns sonhos estranhos, sonhei que estava em uma festa com muitas mulheres onde dançávamos e bebíamos muito. Ao lado de onde dançávamos, casais faziam sexo e outros ainda se beijavam. Parei de dançar e fui passear pelo local, conforme andava todos me olhavam, uns riam de mim e outros faziam caretas, caras feias. De repente – como sempre é em sonhos – eu estava em meio a uma briga. Todos me acusavam de alguma coisa e passaram a correr atrás de mim. Corri muito e tentei me esconder por entre escombros que apareceram do nada e mesmo assim eles me encontraram. Quando eu estava apanhando por toda aquela gente acordei, acordei e virei para a janela e a porta que estavam em minha frente. Ao virar e levantar meu corpo um menino estava ao lado da cama em frente ao armário. Fechei os olhos e abri novamente e ele continuava ao lado da cama me olhando. Não aguentei e dei um soco com os olhos fechados. Quando abri meus olhos novamente não tinha mais nada ao lado da cama. Senti uma dor no meu ombro, depois umas dores em partes do meu corpo. Virei minhas costas para a parede e percebi que minha TV estava desligada. Procurei pelo controle e ele estava no meio da cama, o que me fez pensar que talvez eu tivesse rolado sobre ele e desligado a TV e essas dores causadas pelo colchão por ser duro junto ao controle no qual fiquei rolando em cima. Liguei a TV novamente e fiquei assistindo pra voltar o sono. Fiquei assistindo por alguns minutos e do nada a luz do banheiro acendeu. Quando a luz acendeu levantei novamente meu corpo e sentei sobre a cama ficando cerca de alguns segundos, talvez um minuto ali parado olhando para a porta meio aberta do banheiro e a luz acesa que depois apagou sozinha. Confesso que fiquei assustado, levantei correndo e acendo a luz do quarto. Olhei o relógio e eram três horas da manhã. Só tive coragem pra entrar no banheiro depois de ficar assistindo TV até às seis da manhã com a luz acesa. Às seis e meia, sai do quarto e entreguei a chave e o valor do quarto para outra recepcionista mais nova e bonita, não tomei café com os outros hóspedes que me pareceram todos doentes. Só queria ligar meu pequeno caminhão e voltar para minha rotina.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

domingo, 25 de novembro de 2012

O observador do prédio em frente - I

     Nove horas da manhã e Davi acorda com o sol que invade à janela do seu apartamento no terceiro andar. O sol queima seus pés como despertador natural que invade pela janela larga e alta, ficando poucos centímetros do chão e bem próxima ao teto. Ela é dividida em duas partes: a primeira de baixo não abre; apenas a segunda acima abre para fora. Davi abre à janela e fica observando o movimento da rua abaixo por alguns minutos em pé. Aos sábados não trabalha, acaba por tomar café mais tarde na padaria da esquina e almoçar ou até melhor, jantar em lugares diferentes com seus variados amigos. Deixando o movimento da rua, ele entra no banheiro e enquanto escova os dentes repara que está ficando cada vez mais careca ao passar sua mão esquerda de sua testa até sua nuca. Após escovar os dentes encara seu espelho por certo tempo e depois passa a girar sua cabeça de um lado ao outro olhando para seu nariz que é fino como seus lábios. Davi faz uma careta e sorri sem motivo algum olhando pela última vez o espelho. Ele desliga à luz e sai do banheiro voltando para  janela de seu quarto onde observa mais uma vez o movimento da rua abaixo sentado com seus calcanhares junto a suas coxas e os braços cruzados em cima de seus joelhos. Olhando o movimento, lembra-se que ficou de passar algumas horas dessa tarde com sua mãe. Após certo tempo que passou observando, se levanta e vai tirar suas roupas de dormir. Ele deixa seu apartamento e caminha até o elevador que depois de sair do mesmo, passa pela portaria e cruzando a rua em direção à padaria para tomar seu café e comer um pão com muita mortadela. Davi passa ao lado da senhora Luzia que está na padaria em conversa com o padeiro. Ele passa ao lado da conversa e diz bom dia, eles também desejam bom dia. Enquanto come, ouve conversa da senhora Luzia com o Padeiro. A senhora Luzia de uns sessenta e seis anos com seu pouco cabelo de uma mescla de branco com cinza, de olhos fundos e faces caídas. Ela é proprietária do prédio onde Davi mora. O Padeiro é senhor de uns setenta anos de olhos azuis e bigode branco, que, passou a raspar sua cabeça quando ainda estava na casa dos quarentas anos para esconder sua calvície. Senhora Luzia adora conversar, nunca com estranho, mas, do elevador até à porta de seu apartamento, os vizinhos ou os meninos que vêm carregando suas compras, compartilham de noticiários e coisas corriqueiras do prédio. Desta vez o assunto dos velhos é sobre o menino filho do nosso porteiro que comeu cigarros do próprio pai, por um descuido do mesmo é claro. Ela conta que o porteiro deixou o maço de cigarros na mesinha de sua casa enquanto estava no banho e a mãe que deveria cuidar do menino e talvez por estar fazendo alguma coisa no fogão, esqueceu-se do pobre menino que pegou alguns cigarros e passou a comê-los. Ela conta que teve de socorrer os pais desesperados com o menino que vomitava sem parar. Depois de contar o ocorrido passou a falar mal do porteiro, querendo até despedi-lo por tal descuido com uma criança. É claro que o padeiro, faz gestos com as mãos e também concorda que tudo isto é um grande absurdo. Os dois velhos podem passar horas conversando. O pessoal mais antigo da vizinhança comenta que o padeiro sempre foi apaixonado por Luzia, mas ela depois que perdeu seu marido, ainda quando o padeiro não raspava seu cabelo, nunca mais quis saber de outro homem.
     Davi pede para o garçom marca em sua conta e sai pela calçada em direção à loja de flores. A loja de flores é de uma bela jovem, agora, será uma bela mãe. Quando Davi ainda estava na janela já notara Vitória que organizava suas flores por toda à loja que fica no prédio de frente ao seu apartamento. Agora passando pela porta de vidro com os seus cristais coloridos que anuncia Davi para Vitória, que o recebe com grande sorriso:
– Bom dia Davi!
Bom dia mamãe! E como está o garotão? – Vitória está grávida de sete meses, ainda ontem conversava com Davi sobre o barrigão. 
– Chutando minha barriga. Acho que está adivinhando chuva...
Será bom. Que assim seja!
E você está bem? – Pergunta Vitória que separa algumas margaridas na mesa de madeira de um verde desbotado.
Sim! Tudo ótimo... Vim para comprar umas flores pra mamãe...
Vai visitar sua mãe?
Sim!
Então vou fazer um arranjo de rosas pink, salmão e brancas, tudo bem? Acho que ela vai adorar!
Sim! Tudo bem...
     Vitória tem vinte e dois anos, veio do interior a coisa de três anos. Seu marido, Alberto, recebeu uma proposta de trabalho aqui na Capital. O primeiro ano do casal na capital foi difícil. Vitória aluga o salão do térreo de seu prédio e passa vender flores, seu marido trabalha como motorista. As coisas corriam bem até que Alberto fez algumas amizades e essas amizades acabaram por trazer um grande problema para o casal. Alberto depois de dois anos na capital foi pego em flagrante com uma grande quantidade de droga, acabou preso por tráfico. Vitória estava grávida de dois meses quando Alberto foi preso deixando ela sozinha com sua loja de flores. A mãe de Vitória que mora no interior vem sempre passar alguns dias cuidando da futura mamãe. Ontem mesmo em conversa com Davi, ela disse que sua mãe vai vir no domingo e irá ficar alguns dias cuidando da filha, futura mamãe.
Davi – Retorna Vitória com o buquê de flores depois de alguns minutos – Você só vai levar essas flores?
Sim! Acho que sim... Faz tempo que não vejo mamãe, acho que não preciso levar outra coisa, só as flores já está bom.
Davi... Todas as mulheres gostam de ganhar presentes. Por que não presenteá-la com um perfume?
Perfume? – Davi pega o buquê das mãos de Vitória e fica olhando seu rosto comprido com pequenos olhos verdes. Vitória está com seu cabelo loiro preso, uma blusa amarela de duas finas alças com pequenas rendas que também contorna o decote, suas pernas compridas em uma calça jeans azul. Davi pensa se deveria perguntar se ela está um pouco inchada ou apenas dizer que sua pele está mais clara que normal, em brilho! – Mais eu não sei qual perfume dar...
Cheira esse aqui. – Vitória chega perto de Davi, segura com sua mão direita a alça esquerda de sua blusa. Davi se aproxima para sentir o cheiro. Vitória está sem sutiã. Normal. Nunca usa mesmo. Seus seios agora maiores faz com que Davi fica vermelho por estar muito próximo de Vitória. Ele sente o cheiro e volta seu corpo pra trás.
É gostoso! Gostei, acho que vou comprar pra mamãe.
Então... Vou lá buscar e embrulhar pra presente. Ela vai adorar...
Espero que sim. Não é muito caro?
Eu adoro esse perfume. Alberto também adora ele. Você sabia que não são todas as mulheres que sabem passar perfume para serem amadas? – Vitória deixa Davi no centro da loja e sai falando até à lateral da loja junto ao que parece um freezer onde ela guarda as rosas. Ao lado tem um pequeno balcão branco de madeira e vidro, dentro dele tem várias caixas de perfumes e cremes.
Não! Como assim?
As mulheres que sabem ser amadas, sabem passar perfume. Primeiro: Perfume não se passa no pescoço e nem perto dos seios. Porque, qual homem que gosta de beijar o pescoço de uma mulher e sentir o gosto ruim do perfume na boca? Nenhum... Mulher que sabe ser beijada e amada sabe passar perfume. Não é verdade?
Nunca tinha pensado sobre isto... Ele não é caro né?
É que os homens nessas horas, nem ligam pra gosto ruim do perfume, eles só querem... Enfim, aqui está... Não Davi! Ele não é caro... E depois você me paga em duas vezes, é melhor assim?
     Davi e Vitória estão conversando um de frente ao outro no centro da loja ao lado de algumas mesas com vários arranjos de flores prontos para serem comprados. A loja é pequena, de poucos metros quadrados, porém, muito bem aproveitada por flores suspensas nas paredes, quadros de belos arranjos e um grande mural com muitas fotos. A mesa que Vitória usa para fazer seus arranjos, o balcão onde guarda seus produtos de venda e o freezer das rosas.
     Os cristais da porta soam. Entra um homem alto com aparência física forte de macacão azul e uma prancheta na mão. Vitória ao ouvir o barulho já olha pra receber seu cliente.
Bom dia! Em que posso ajudar?
Bom dia! Eu trabalho na loja de móveis: Menino Deus. Vim trazer um berço pra senhora Vitória, é a senhora mesma?
Sim sou eu. Eu vou pegar as chaves pra você.
     Vitória correu para pegar as chaves. O entregador tem olhar triste de olhos negros como seu cabelo e barba de fios compridos sem serem aparados há dias. O entregador parece não notar Davi, acabam por não trocar nenhuma palavra. Davi fica olhando ora paras flores e o perfume em suas mãos ora para tudo a sua volta. O entregador fica olhando o mural de fotos de Vitória até que ela retorna com as chaves.
Aqui... É essa chave aqui. Você abre a porta aqui na lateral e sobe as escadas. É o apartamento de número 4. Você já irá deixar montado certo?
Sim. Já vou montar ele agora. Então é só subir as escadas, o apartamento quatro?
Isso mesmo. Não repara a bagunça...
Em que lugar é pra montar?
Depois que passar pela porta segue o corredor, passa pela porta da direita, passa pela cozinha e a sala. O quarto vai ficar na sua esquerda de frente pra sala.
Tudo bem...
     O entregador e também montador sai com as chaves. Davi se despede de Vitória e sai com as flores e o perfume nas mãos. Davi ficou feliz com sua manhã. Ao caminhar de volta ao seu apartamento o sorriso de seus lábios finos transcendem pela entrada do prédio. A senhora Luzia que estava conversando com o porteiro, pede para que Davi segure o elevador para ela. Ela entra e fala bom dia para Davi. Davi lhe responde com o mesmo sorriso que ainda não saio de sua face. As portas se encontram. Luzia olha pra Davi e começa:
Você ficou sabendo do filho do nosso porteiro?
Sim! Ouvi falar um pouco sobre isto...
Que absurdo! Uma irresponsabilidade muito grande! Uma criança... Como podem deixar uma criança sozinha, não cuidam, não cuidam!
     Davi fica mudo e só concorda com sua cabeça. O elevador sobe e Luzia continua:
É esse mundo de hoje! Você viu?! Tem um serial killer matando mulheres, esse mundo está perdido! Ninguém acredita mais em Deus, esses jovens de hoje em dia, é tudo um absurdo, é tudo um grande absurdo!
     Luzia mora no último andar, o mesmo de Davi. O elevador para e as portas se abrem. Luzia continua falando e caminhando pelo corredor ao lado de Davi até chegar ao seu apartamento onde fica pra trás abrindo a porta. Quando ela entra, Davi inspira aliviado de frente sua porta. Ele entra coloca as rosas e o perfume sobre a mesa, vai na geladeira pega um copo d’água e olha no relógio da sala que marca meio dia.  
     Davi ficou em seu apartamento até às duas da tarde. Comeu alguma coisa da geladeira, ligou o computador e marcou de encontrar com alguns amigos mais tarde depois que visitasse sua mãe. Às duas horas, correu pegou a chave de seu carro e foi ao encontro de sua mãe. A muito tinha deixado de morar com os seus pais que, quando o filho foi morar sozinho por certa independência financeira adquirida ao trabalhar na empresa de seu Tio, os pais de Davi se separaram. O pai mudou de Estado indo embora com uma mulher mais nova, amante há muito tempo dele. A mãe ficou sozinha onde hoje fez um bolo de chocolate para o filho. A mãe de Davi, Eugenia, mulher de cinquenta e quatro anos, com uma saúde um pouco frágil com seu diabetes e problema do coração que agora bateu mais forte encostado ao peito do filho com o abraço do qual seus olhos brilharam por certo tempo, ainda mais com o carinho do filho, as rosas e o perfume como presente. Depois que entregou e passou a conversar com sua mãe, pensou em Vitória que lhe ajudou indicando o perfume como presente. Mãe e filho passaram horas conversando, naquele dia eles tinham muitos assuntos e muitos sorrisos para compartilhar. Ele ficou até as sete com sua mãe que já estava preparando o jantar, o que no final do encontro despertou uma pequena tristeza ao ver que o filho não iria ficar para o jantar. Ficou prometido para dias futuros. Davi vai ao encontro de seus amigos. Na verdade é o primeiro a chegar. Fica até as nove na mesa tomando entre um chopp e outro até que chegam seus amigos e amigas, os casais. O papo ficou um pouco limitado com as mulheres na mesa. Cercado por três casais e só ele ali... Isto o deixou um pouco desanimado, mais em pensamentos do que em conversa. As onze e alguns minutos deixou seus amigos. Só percebeu que o bebê, o garotão de Vitória, adivinhou mesmo a chuva, quando saio do restaurante estava caindo do céu negro muita água. Entrou no carro e torceu para não cair em nenhuma blitz, afinal, tinha passado um pouco dos limites com os chopps.  Dirigiu muito mal, a chuva e a bebida fez de sua noite, uma péssima noite. Ao chegar próximo da entrada do prédio percebeu um vulto que se metera entre uma arvore e o lugar onde se coloca o lixo. Chegou até a parar o carro e ficar olhando por certo tempo. No fim resolveu consigo mesmo deveria mesmo é ir dormir.
     Ao entrar no seu apartamento o vento chacoalhava suas cortinas. Aproximou-se da janela e olhou para o prédio de Vitória. O relógio de seu pulso marca meia noite e ela ainda não foi dormir. Sabe disso, pois sempre quando ela vai dormir apaga todas as luzes e agora à luz da sala ainda está acesa. Fechando à janela ele foi até o seu computador que o liga. Enquanto sua maquina antiga inicia, vai até a geladeira pegar um copo d’água. Um pouco da chuva que caiu sobre sua cabeça pode ter clareado suas ideia. Ele volta e senta-se em frente ao computador para navegar pela imensidão da internet que no vasto campo dessa mesma imensidão, só abre uma pagina, a de seus emails e apenas um novo email aparece para ser lido. O titulo é estranho e desperta curiosidade em Davi. Email:

Nós criamos uma grande ilusão?

     Estou escrevendo na coluna dia a dia que é semanal do Jornal MarxFree também semanal de um grande amigo meu, este é o meu primeiro texto que escrevo e espero que seja o primeiro de muitos. Obrigado!
     A ilusão é a realidade para a maioria das pessoas? Por que derrubar milhares de arvores para a agricultura se os alimentos não serão distribuídos para os milhões de pessoas no mundo que estão morrendo de fome? Por que cobrar tantos impostos, e depois com este orçamento gastá-lo com armas e exércitos, se usados, destruirão a nossa civilização? Existe algum sentido em ensinar às crianças as virtudes cristãs da humildade e do desprendimento e, ao mesmo tempo, prepará-las para uma vida na qual o oposto a essas virtudes constitui uma necessidade para o êxito? Tem sentido em vivermos em meio a abundancia, sem segurança no sistema que não assegura nosso bem estar, nossa segurança de sair para o trabalho e retornar? Quais são essas ideologias que nos são impostos? Uma ilusão de nosso aborrecimento irônico?
      Todas essas ideologias são impostas desde a infância, pelos pais, escolas, igrejas, cinema, televisão, jornais e se apossam da mente dos homens como se fossem resultados do pensamento e da observação de cada um. Como este texto que adaptei para não ser uma criação deste colunista. Era apenas uma ilusão para o leitor e para mim mesmo, como se todas essas perguntas fossem criadas por eu e não por Erich Formm.   

Abraço.
     Davi leu todo o email. Desligou o computador e levantou-se, caminhou até a janela, olhou para o apartamento de Vitória e viu sua luz se apagar. Jogou seu corpo contra o coxão e lembrou-se de tirar os sapatos e com os pés passou a tira-los. Olhou para sua camisa e sua calça e não fez questão de se levantar e tirar. Virou-se de lado e passou a olhar o ponteiro maior de seu relógio do pulso até que o sono o leve para os sonhos ou pesadelos, se tiver sorte, apenas irá dormir.
     Vitória depois que fechou a loja não saio de casa. Ficou arrumando o quarto de seu bebê e depois foi limpar o seu apartamento. Quando a noite surgiu ela fez sua janta e só assistiu Tv. Até pouco tempo ainda estava assistindo, mas, enquanto chove ela está sentada na cadeira de balanço branca lendo um livro com o titulo de: Mãe pela primeira vez? O texto eu não vou citar aqui, é bem provável que seja um belo texto, nada comparado com o homem que está na porta do quarto. Vitória assustou-se. Colocou sua mão sobre a barriga e perguntou ao homem o que ele estava fazendo em pé ali na porta do quarto. Ele não respondeu avançando sobre ela com uma faca na mão direita. Quando ele avançou alguns passos na direção de Vitória, ela o reconheceu. Era o mesmo entregador/montador de hoje pela manhã. Ela se levantou da cadeira jogando o livro contra ele e foi tentar correr em direção ao banheiro que fica dentro do quarto. Quando estava chegando perto da porta do banheiro foi puxada pelo cabelo. Ela girou seu corpo para bater com sua mão no homem, mas, quando se virou a faca passou em seu pescoço. Ela não gritou. Seus olhos saltaram para fora, sua boca abriu e o sangue escorreu pelos lados. Sua face estava em horror. Seus olhos saltados como buscando alguma coisa, olhavam para o homem. O homem está com manchas de sangue pela face, braços e em algumas partes de seu corpo. O sangue quente de Vitória salta com pressão e ao mesmo tempo escorre pelo seu vestido de borboletas coloridas. O homem solta o cabelo de Vitória e seu corpo cai rápido no chão frio. Ele fica olhando Vitória que tenta de alguma forma buscar sua vida. Ele continua olhando para ela esperando que seu corpo se fixe como seus olhos estão fixos em alguma estrela do teto do quarto no qual foi pintado de azul com várias estrelas brancas. Após ver com seus olhos a vida de Vitória que a deixou, ele coloca a faca no chão ao lado do corpo e passa a esticar os braços de Vitória como faz com suas pernas deixando a direita em cima da esquerda nas canelas. Vitória é arrumada no chão como se tivesse em uma cruz. Após mexer no corpo, o homem, pega a faca e corta seu vestido de cima a baixo. O vestido é aberto mostrando o corpo nu de Vitória. Ele se ajoelha deixando os joelhos de cada lado do corpo, pega a faca ao lado com a lamina para si erguendo-a na altura de seu peito e solta com força entre os seios de Vitória. Ele puxa a faca até cinco ou sete dedos depois do umbigo. Levanta a faca novamente e partindo do umbigo faz um corte para a direita e outro para a esquerda. Esses cortes abertos faz com que o bebê e alguns órgãos sejam cortados e fiquem expostos. Os cortes formam uma cruz de cabeça pra baixo. O homem se levanta sobre o corpo e olha o bebê de Vitória que faz alguns movimentos. Ele caminha até o banheiro onde se lava e fica por um período de tempo com as mãos na água corrente. Depois lava seu rosto e sai do banheiro, passa pelo quarto sem olhar para o corpo de Vitória, chega à sala, desliga a Tv e caminha pelo corredor. Ao chegar à porta, olha pra trás e antes de fecha-la, desliga à luz.

O observador do prédio em frente - II


     Nove horas da manhã e Davi acorda com o sol que invade a janela lateral do seu apartamento no terceiro andar. O sol queima seus pés como despertador natural de seu quarto. Davi levanta e abrindo a janela fica observando a rua abaixo que não tem nenhum movimento no domingo. Os domingos são sempre desanimadores para Davi, ou acorda de ressaca ou acorda sem motivo nenhum para se pensar em fazer alguma coisa. Acaba por assistir Tv o dia todo ou fica no computador. As horas passam de vagar. Seu almoço é alguma coisa industrial e sua janta, nem ele faz ideia do que irá comprar.
     Quinze horas e alguns minutos.  Davi estava cochilando no sofá na sala com a Tv em algum canal sobre alguma coisa.  Gritos acorda Davi. Ele olha da janela de seu quarto e uma mulher desesperada corre pela rua em direção ao seu prédio e pouco tempo depois o porteiro de seu prédio vai ao apartamento de Vitória e sai do mesmo falando ao celular. Davi fica em sua janela até que vários carros da polícia cercam a rua e o número de pessoas em frente aos prédios começa a aumentar, ele não aguenta de curiosidade e desce para ver o que está acontecendo. Ao chegar à rua ele olha para uma multidão de pessoas e a primeira mulher que ele viu saindo aos gritos, com suas mãos ao céu, ainda está chorando e falando o tempo todo abraçada com Luzia: – O que fizeram com minha menina? – O que fizeram? – Por que Deus, por quê? Davi se aproxima e pergunta o que aconteceu. Pergunta para três pessoas que não conhecia e essas três falaram a mesma coisa: – Mataram Vitória! Davi coloca as mãos na cabeça e corre para entrar no prédio. Na porta é parado por alguns policiais que não deixa ninguém passar. Ele fala que quer ver Vitória, que conhece ela, que é seu amigo. Nisto o carro do IML chega e os profissionais entram no prédio. As únicas pessoas que viram o corpo de Vitória foram os profissionais, o porteiro e a senhora que chora sem parar, que tempo depois Davi soube que ela é mãe de Vitória. Entre as pessoas que cercam o prédio, o porteiro conta como encontrou o corpo, conta para todos e todos fazem questão de ouvir dele sobre a posição do corpo, os cortes, o sangue preto e o feto, ele diz feto e não bebê, e de como os olhos de Vitória estavam horrivelmente abertos. Davi para de ouvir e sai em direção ao seu prédio. Enquanto caminha passa mais uma vez pela mãe de Vitória que entra no carro da polícia. Ela estava muito abalada, Luzia o tempo todo ficou ao seu lado.  Ele olhou para ela e abaixou a cabeça correndo sem parar até o elevador de seu prédio. Quando entrou e apertou o botão de seu andar, colocou suas mãos na porta fechada e ficou com parte de seu corpo inclinado pra baixo. A porta se abre, ele levantou-se e sai caminhando com passos lentos até a porta do apartamento, na mesma demorou em encontrar as chaves no seu bolso, quando encontrou, demorou também para conseguir encaixar a chave no lugar certo. – É como se eu estivesse bêbado! Passou pela sua cabeça. Depois que abriu a porta o barulho de várias sirenes voltaram ao seu máximo, ele correu até a janela e a fechou com tanta força que após ela se fechar, ele foi jogado de costas ao chão. Ele caiu e ficou. Nisto correu vários minutos enquanto ele nada se movia no chão de barriga pra cima e os braços abertos. Pela sua cabeça passava várias coisas, depois de muito olhar para cima, ele encolhe seu corpo em posição fetal com seus joelhos dobrados, leva suas mãos os olhos e passa apertar fortemente enquanto pensa consigo mesmo: – Eu quero chorar, eu quero chorar! Mas neste tempo todo não chorou, o que o fez sentir raiva, sentiu uma coisa horrível dentro de si, bateu com as palmas de suas mãos no chão, bateu até que elas doessem, depois de um tempo parou e passou a olha-las e elas estavam vermelhas. Passou alguns segundos olhando para elas até que um grito saiu pela sua boca que se abriu e depois que o gritou cessou, passou a vomitar. Esse primeiro vômito foi tão inesperado e rápido que nem o sentiu saindo pela sua boca, já na segunda vez em que vomitou e as outras tantas eram como se alguém estivesse puxando tudo aquilo que saia de dentro de si para fora. Davi depois que vomitou, levantou-se e foi ao banheiro. Parou de frente ao espelho e pensou:  Eu tentei chorar! Eu desejei chorar! Eu queria ver minha tristeza, meu sofrimento em minhas lágrimas. Mas, eu devo ter chorado muito quando criança! Devo ter chorado por bobagens, que essas bobagens não mereciam meu choro, eram apenas bobagens! Agora me tornei forte, não consigo nem mais chorar. Agora sou homem! Agora não choro mais e eu desejei chorar por ela... Eu tentei chorar por ela e ver escorrer dos meus olhos lágrimas, mas agora sou realmente homem e não consigo chorar!
      Davi pensou tudo isto parado olhando sua imagem no espelho. Seus olhos castanhos nem vermelhos estavam. Ele tomou um banho na água quente e depois foi ao seu quarto limpar todo aquele vômito, depois que limpou ficou certo tempo sentado com um copo d’água sobre a mesa na cozinha. As horas passaram de vagar, em nenhum momento Davi olho para o relógio, só percebeu que muito tempo já tinha se passado depois de tanto refletir na mesa com toda sua cozinha escura, todo seu apartamento estava em silêncio e escuro. Ele levantou-se e sentiu que uma de suas pernas estava dormente, andando de vagar, chegou-se em sua cama e deitou-se. Sua noite foi agitada, teve terríveis pesadelos, sonhando com Vitória que aparecia em sonho pedindo socorro e ele lutava contra um homem mais forte que ele, que o deixava caído de joelhos no chão não conseguindo salvar Vitória. Depois de certo tempo acordou com frio, com seu corpo suado e tremendo. Ele levantou e foi pegar uma manta e lençol para cobrir-se e voltar a dormir. Dormia cinco minutos e mais pesadelos, pesadelos que o fazia despertar de minutos em minutos, até que não aguentou mais, ligou a Tv. Segurou-se acordado o quando pode, mas, depois de alguns minutos caiu em sono novamente e ficou assim, dormindo e acordando até às seis da manhã quando ligou para seu Tio que o liberou para ir ao médico ou aonde quisesse ir durante o dia, que buscasse ficar bem. Davi ainda tremia embaixo do chuveiro que depois do banho colocou uma roupa qualquer e saio pelo prédio, já na portaria pegou um táxi e foi à delegacia de polícia, teve sorte de encontrar o delegado na calçada junto com vários policiais que pareciam ouvir ordens do mesmo. Davi não conhecia o delegado, mas, ali no primeiro momento ao descer do taxi viu aquele homem pequeno, de terno, que todos os policiais estavam ouvindo, não teve duvidas e no primeiro momento que ficou próximo tentou agarrar o delegado que percebeu Davi antes e o jogou contra a parede da delegacia sacando sua arma. Davi assustou-se, fechou seus olhos e disse que estava buscando apenas justiça. Os policiais cercaram Davi que cai sobre o chão e passa a tremer. Todos olham para ele sem dizer nada, ele ergue sua mão direita e diz:
 Justiça! Eu quero justiça!
     Após dizer isto, desmaiou-se.  Ali mesmo no chão pelo lado de fora recebeu o atendimento dos bombeiros. Todos ficaram de olho nele. Quando ele acordou ficou mais assustado com a delegacia que estava muito agitada, talvez seja sempre assim, mas, essa é a primeira vez de Davi em uma delegacia. Ele olhou para todos e quando o pegaram e o colocaram sobre a maca para encaminhar para o hospital, ele gritou:
 Não! Eu não vou até que peguem quem matou Vitória, minha pobre Vitória, mataram a pequena! Mataram a pequena e seu pequeno bebê!
     Não deram ouvidos, já estavam todos saindo de perto para que o Davi fosse levado ao hospital. Perto da ambulância, Davi grita mais uma vez:
 Eu sei quem matou ela! Eu sei! Eu sei, eu o vi nos meus sonhos, eu vi aqueles, aqueles olhos pretos, aqueles mesmos olhos pretos, eu vi! Eu vi!
     O delegado que estava caminhando para dentro da delegacia e ouve os gritos de Davi. Voltou antes que fechassem as portas da ambulância e disse:
 Esperem! Esperem! O que você está falando?
Não de ouvidos senhor. Ele está delirando, é normal com a febre.  Disse um dos que levava Davi.
Espere. Mesmo assim, deixe ele falar... – O delegado entrou na ambulância e sentou-se perto de Davi.
Eu vi ele... Ele foi comprar flores! Não! Espere... Não! Ele foi montar o berço. O berço do bebê, ele foi montar eu o vi! – Davi tentou sentar na maca, mas, não deixaram. Sua voz está fraca, de todas as palavras que falou, poucas saíram inteiras sem corte no início ou no fim.
Eu não disse, ele está louco! Vamos dar um calmante pra ele.
Esse que você viu, como ele é? – Perguntou o Delegado que colocou seu ouvido junto à boca de Davi.
Ele é mo-re-no, al-to e for-te... Tem muito barba. Os olhos, os... olhos... São pretos, pretos e frios!

     Ao ouvir Davi, o delegado chamou um policial de dentro da delegacia. Esse chegou-se perto da ambulância e ouviu o delegado que pediu para que ele trouxesse o relato de uma testemunha da terceira vítima. Ele trouxe e o delegado leu as mesmas características que Davi estava falando. Ele perguntou se Davi sabia mais alguma coisa, o nome do homem ou alguma outra informação. Davi ficou por certo tempo olhando para uma luz no teto da ambulância. O delegado o chacoalha e ele volta a si. Olhou para o delegado e disse lembrar-se de uma coisa, talvez o nome da loja e ao falar isto olhou para suas mãos e disse o nome da loja: Menino Deus. Após dizer, passou a tremer em convulsão, seus olhos virou-se e passou a enrolar a língua. Os bombeiros correram com Davi para o Hospital. O delegado agora tem informação necessária para pegar o Serial Killer. O delegado que antes de Davi chegar estava passando certas ordens, agora teve de mudar tudo. Nisto ele perdeu certo tempo, mas, correu até a loja para tomar as medidas necessárias para prender o montador/entregador. Ao chegar à loja, o delegado teve sorte do mesmo está ali e não ter saído para suas entregas diárias. Ali mesmo após receber voz de prisão ele disse que já esperava por eles, sabia que um dia eles viriam, só não sabia depois de quantas vítimas. Na delegacia o homem confessou todos os cincos assassinatos. Disse que só matou mulheres grávidas porque tinha perdido sua mulher há pouco tempo e ela estava grávida. Sobre o ritual de colocar os corpos como se estivessem em cruz e fazer os cortes da cruz virada de cabeça pra baixo, era uma maneira de protestar com Deus. Falou que sua mulher era católica quando ele a conheceu, que ele não gostava de ir à igreja com ela, mas, ela gostava de ir sempre, até que ao sair da igreja foi atropelada com o motorista que matou ela e seu filho fugindo do local. Depois disso, não aguentou mais esse Deus que tinha tirado sua mulher e seu filho e foi fazer isto contra todas as mulheres grávidas que encontra-se pelo caminho até que Deus fizesse ele parar. Seu ritual era sempre o mesmo, mata e depois lava as mãos, como se limpando para continuar matando.
     Davi ficou uma semana no hospital. Durante esse tempo só dormiu e falou muito pouco. Se teve pesadelos com Vitória não contou para sua mãe, que ficou a semana inteira com ele sem sair nenhum dia de perto do filho. Talvez com o tempo as coisas voltem ao normal se já não voltou após essa primeira semana.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

sábado, 6 de outubro de 2012

O amor é o carrasco que tortura

     Faz duas semanas que venho sendo torturado. Ela entrou durante todos esses dias em minha vida e me torturou por horas até que eu desmaio em prazer e dor. Quando acordo o meu sangue marca em risco mais uma vez à parede da lembrança. Não desejo o fim e ela diz que nunca vai parar de torturar. Sempre com novas vítimas e sem esquecer-se das antigas, o amor é o carrasco que torturar seja quem for e como for!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O que acontece depois?

      Tarde de Sábado, dia 17 de Julho de 1993. Humberto sai correndo pela rua Rocha do bairro Roliço onde mora com os pais. Ele sempre corre até o clube onde joga futsal com seus amigos. A corrida pela cidade é saboreada com as músicas de seu walkman e com vários pensamentos, entre tantos o jogo do Internacional vs Grêmio pelo Gauchão. Quando criança sonhava em ser como Ruben Paz camisa dez – Quero jogar pelo Inter – Falava pelas várzeas quando criança onde jogava com seus amigos. Humberto agora está com vinte anos e já desistiu de ser jogador. Na parede de seu quarto há vários posters entre os de bandas de rock está o do Internacional campeão Gaúcho de 1982 autografado por Geraldão.
      Na Avenida do clube ele tira os fones e passa caminhar até o meio da quadra onde percebe uma agitação de pessoas formando uma fila que da entrada do clube subindo uma escada e passando pelo corredor, continua até o salão de bailes. O cabelo comprido de Humberto que balançam de um lado ao outro conforme a ordem de seus passos. Ele passa ao lado da fila e na entrada do salão, nota vários quadros nas paredes e algumas esculturas no centro. Correndo os olhos sobre os quadros, um lhe chama atenção. O quadro esse na sua esquerda, na ordem crescente da entrada ao fim do salão, ocupa o terceiro lugar.  Ao lado direito  o segundo pela ordem retrata uma moça de vestido azul com uma gravata borboleta vermelha, com refrigerantes e bolo de chocolate sobre uma toalha florida ao chão. O quadro que o fez entrar no salão é a capa do disco Titanomaquia dos Titãs. Uma de suas bandas favoritas e também da artista que o fez, Priscilla.
 Humberto, vai ficar olhando ou vai jogar?  Disse Renato amigo de Humberto que passa rápido por ele em direção à quadra de Futsal.
 Já estou indo. Estou vendo aquele quadro ali, conhece? – Renato para e volta pra ver o quadro que Humberto aponta com seu indicador.
 Esses riscos coloridos?
 Sim! É... É a capa do Titanomaquia!
 Tita o que? Sei lá, eu vou indo!  Renato deixa Humberto e segue pra quadra.
 Oi! Com licença, você sabe de quem é essa exposição?  Pergunta Humberto a uma mulher saindo do salão.
 É aquela moça ali – Aponta sem ao menos parar.
 Obrigado!
      Humberto observa que perto da moça há várias senhoras que conversam entre elas. Atravessando o salão na direção da moça que parece que acabou de sair da aula de desenhos da pré-escola, onde as criancinhas brincam com as tintas manchando tudo por onde passam. Seu vestido que um dia foi branco de duas pequenas alças, agora se mostra com várias manchas de mãos, pés, enfim, várias manchas de tintas. Tudo se mostra colorido como suas meias até o joelho, que são listradas em cores. O all star de cano médio azul e seu rosto redondo de menina com grandes olhos, os ombros largos e magros como seus braços e pernas. Priscilla se mostra feliz ao lado das senhoras que conversam entre elas.
 Olá, eu sou Humberto...  Antes mesmo que Humberto continuasse sua fala, foi interrompido pela jovem.
 Oi Humberto! Você está bem? Está todo suado!
 Sim! É... É, eu estou bem sim! Vou jogar futsal na quadra do clube, aí...  Humberto é interrompido.
 Entendo. Gostou dos quadros, por isto entrou? 
 É... É na verdade gostei mais do Titanomaquia ali...
 aaaaah, então você conhece. Nossa... Eu já estava cansada de ficar dando explicação. “O que é isto? Por que isto? Meu Deus é isto mesmo?!” ...Vem cá, quero mostrar aquele ali pra você – Pegou Humberto pelo braço e sai puxando-o. Chegou em frente ao quadro no qual havia um anjo de joelhos segurando com as mãos uma flecha no peito esquerdo.
 Olha... E aí, gostou?
 É, é bem expressivo! Que quer dizer?
 Sabe... Esse é Eros, já ouviu falar?
 Claro que sim! Mas, por que desta maneira?
 E daí?! Eu quis fazer ele e gostei de ter feito ele dessa maneira, entende?
 Acho que sim. Sua exposição é sobre o que mesmo em?
 Não tem um tema sabe... Aqui tem quadros desde quando eu passei à pintar até esses que fiz enquanto ouvia Titãs. Não ligo pra tema, só coloco no pincel o que estou pensando naquele momento, por isto você pode ver esta escultura atrás de nós... É pegar a solda e os ferros e soldar, sabe?!
      As chapas de ferro tomam forma de um corpo de mulher com seios fartos como sua barriga em nada marcado por marteladas ou solda. É perfeitamente lisa, de uma sutilidade incrível. Sem marcas até mesmo nos dois pescoços que deles saem duas cabeças de mulheres em um único corpo perfeitamente soldado, batido e destorcido.
 Acho que sim. Então, eu vou lá jogar... É, é eu gostei deles! Parabéns! Eu vou indo...
 E você vai sem saber meu nome?
 Verdade... Desculpa! Como é mesmo?
 Sou Priscilla!
 Tudo bem Priscilla, eu vou lá...  Disse Humberto com seu sorriso perfeitamente longo, que ao passo de alguns segundos é petrificado até que ele vire as costas e sai.
      Humberto chega e o jogo já começou – Dois gols sai um, avisa Renato. Humberto fica assistindo ao jogo, mas, não pensa no jogo, ele está pensando na moça estranha que acaba de conhecer – Como pode ser tão menina, com aquelas meias até o joelho, seu vestido todo manchado de tintas, e aquilo com Eros, como pode colocar uma flecha em seu coração e deixa-lo de joelhos. – Humberto busca compreender o que acaba de ocorrer com ele – Eu nem peguei o endereço dela, poderia ser legal eu chamar ela pra fazer alguma coisa, não sei se volto lá, será que soaria estranho?!
Humberto, não vai entrar? – Avisa Renato.
 Já foi?! Já é... É minha vez?
 Sim! Entra aí... E tira à camiseta...
     Humberto jogou bem futsal como sempre o fez. Marcou alguns gols, e não saio até o final do tempo da requisição. Quando o jogo acabou, ele corre e se lava no bebedouro, todos seus amigos ficam esperando que ele volte e vá com eles ao bar do Rodolfo como sempre é. Humberto não volta e passa pelos amigos em direção ao salão parando em frente à porta e nota que Priscilla está mostrando o mesmo quadro que mostrara pra ele ao senhor de uniforme militar. Ele fica parado na porta olhando Priscilla que tenta de alguma maneira explicar aquele quadro ao senhor. O senhor é magro e alto de faces pensativas e muito sério. Quando eles passam para outro quadro, uma mulher bonita de meia idade com vasto cabelo negro, vem ficar ao lado do senhor. Humberto fica da porta olhando todos os movimentos rápidos das mãos de Priscilla. O senhor parece confuso e, é de se notar que não entende nada do que àquela moça fala e gesticula com as mãos. A mulher ao lado do senhor no uniforme parece amenizar a situação puxando-o pelo braço até uma mesa de doces. Priscilla para diante do casal e fica olhando sem dizer uma palavra. Humberto atrapalha quem entra no salão, por ficar esse tempo todo parado olhando, a fila quase não anda, uma senhora o cutuca com o punho fechado. Ele volta de seus pensamentos para onde está. Enquanto olhava, esquecera-se de si mesmo, ao voltar, abaixa à cabeça e vai em direção ao portão. Pega seu walkman do bolso e coloca os fones e sai caminhando pelo corredor – O que estou fazendo? Eu não pensei que entraria e pediria o endereço dela, o que fiz? Espera... ainda dá pra eu fazer isto, vou voltar! – Tira os fones e volta subindo as escadas.
 Oi Priscilla!  Disse Humberto chegando-se atrás de Priscilla. É de se notar que Humberto em nenhum momento seguiu pela fila, foi entrando todas às vezes sem se preocupar com isto. O que agora, algumas senhoras passaram a reclamar entre elas mesmas, o que na entrada do salão gerou o pequeno tumulto, mas, ninguém de dentro do salão parece se preocupar com este fato, pode se dizer que nem estão notando ou dando importancia para tal tumulto causado por Humberto.
 Oi! Oi Humberto. Então... Quer alguns docinhos? – Humberto apenas olha para mesa, fica um tempo olhando sem decidir qual doce pegar. O casal e Priscilla ficam olhando-o esperando alguma reação dele.
 Quem é Priscilla?  Disse o senhor que repara em Humberto de baixo à cima. O mesmo senhor militar que outrora estava com Priscilla olhando os quadros...
 É um amigo papai, vem cá Humberto – Priscilla pega Humberto pela mão e o puxa. Enquanto é puxado, Humberto começa balançar sua cabeça, como se cumprimentasse o Senhor.
 Não liga, aquele é meu Pai.
 É?! Entendo...
 Ele está em serviço. Mato-o para comer alguns doces com mamãe.
 Então aquela é sua mãe e seu pai?
 Sim!
 Por que do uniforme?
 Ele é Tenente. Vem cá, você veio conhecer mais sobre meu pai?
 É... Não! Quer dizer, não! Eu voltei porque iria pedir seu telefone ou endereço mesmo...
 Não vai mais então?
 É... Sim! É vou! Me passa o número e seu endereço...
Tá. Enquanto Priscilla corre para pegar caneta e papel, Humberto foi à mesa onde as senhoras e o senhor militar pegam doces. Ao chegar à mãe de Priscilla veio ao seu encontro:
 Pegue esse, esse aqui. Minha filha Priscilla adora esse docinho, assim como seu pai.
 Há é? É... Interessante.  A mãe da Priscilla riu com o jeito atrapalhado de Humberto.
 Como é seu nome meu jovem?
 É Humberto mamãe.  responde Priscilla  Aqui Humberto o endereço...
 E pra que você está passando isto Priscilla?
 Papai... Ele é meu amigo, por favor...
 Que isto meu bem, isto é coisa dos dois.
 É papai, ele é só meu amigo – Humberto ouviu tudo sem nenhuma expressão em seu rosto, girava com sua cabeça de um lado ao outro para olhá-los enquanto falavam – Esse é Humberto, essa é minha família: minha mãe; Rita e meu pai; Raul.
Prazer! – O Pai continua serio e a mãe se permite em pequeno sorriso para Humberto que lhe retribui com o mais largo e demorado.
 Agora vem... – Priscilla sai puxando Humberto pela mão ao centro do salão, mais uma vez voltando para mesma escultura de ferros.
 Então Humberto, por que não me esperou e foi lá com meus pais?
 Não é, é quê, eu fui pegar um doce. E seu pai não parava de olhar... Eu só quis chegar perto pra vê-lo melhor...
 Sei... Então vai me visitar?
– Sim! Vou sim. Priscilla, eu tenho que ir... Voltei para conseguir seu número, agora vou à casa do Nasi, temos de ensaiar...
– Tudo Bem! Vai mesmo que meu pai já está vindo em nossa direção. Tchau... – E ainda segurada pela mão de Humberto, Priscilla o beija em sua bochecha direita.